Monday, May 7, 2007

Minha mãe é grega

A aula de hoje, primeira do módulo de Cibercultura, coincidentemente aconteceu no mês de maio e o assunto me fez lembrar de minha mãe. Dona Lélia, 58 anos, nunca teve qualquer contato com a internet e essa é a única razão para eu tornar pública a idade dela sem temer represálias. Enquanto o professor André Lemos explicava os três princípios básicos para compreender a cibercultura – emissão, conexão e reconfiguração – eu me lembrava de algumas indiretas que recebi a respeito do presente ideal no dia das mães: um computador e um curso básico de informática – “só quero aprender mesmo a mexer na internet”, minimizava minha digníssima genitora. O desejo dela tem tudo a ver com essa mudança da produção de informação que se tornou possível com internet. A partir do momento em que se libera o pólo emissor e esse está conectado com o resto do mundo, se alcança plenamente a liberdade de expressão e há uma reconfiguração nas relações – sociais, políticas etc.
Hoje, posso dizer que minha mãe é grega, já que mesmo com formação de nível superior e atenta aos fatos do cotidiano e suas diversas contextualizações, está afastada do espaço de discussão, de emissão de opinião, de troca de informação instantânea que é a internet, assim como as mulheres gregas eram impedidas de qualquer participação nas ágoras. A opinião que ela forma a partir da informação que recebe dos meios de comunicação de massa – rádio, televisão, jornais e revistas – é partilhada apenas no ciclo de amizade dela, no máximo dez pessoas. A visão de mundo é restrita àqueles fatos que foram agendados pelos jornalistas e apresentados, dentro de um formato pré-estabelecido, numa mídia convencional.
Hoje temos cada vez mais informação e, paralelamente, se a sua fronteira para receber e emitir é cada vez maior você também é cada vez mais livre. E acho que é isso que dona Lélia tanto ambiciona. Comentar os fatos corriqueiros e generalistas de nossa cidade com as colegas de academia de ginástica não é mais suficiente para ela, que tanto ouve dos filhos conversas sobre as potencialidades da internet ou experiências autorais com blogs (sobre os quais ela nada sabe). É claro que o bate-papo sobre o buraco de rua que mais parece uma cratera e passou no jornal do meio-dia vai continuar. Só que, mesmo sem ainda entender, ela quer poder participar. Quem sabe em 2008, mãe. Esse ano, o dinheiro está curto e teremos que continuar com a simbólica lembrancinha.

3 comments:

Giselma Barbosa said...

Lendo o seu comentário, lembrei dos meus pais. Assim como sua mãe, eles também não tem nenhum acesso a internet. Na verdade não tiveram oportunidade, agora tem e falta tempo por conta do trabalho. Até tentei outro dia ensinar o básico a mãe, ela alegou que é difícil. Mas, assim é a vida, os nossos pais muitas vezes nos proporcionam o que eles não tiveram quando estavam jovens por não terem tido oportunidade. Só temos que agradecer e fazer por merecer o investimento que eles depositam na gente.

Najara Lima said...

Minha mãe também é grega. Tem medo de mexer até no DVD e no aparelho de som, achando que se apertar um botão errado vai causar uma explosão lá em casa. Mas um dia ela muda.

Pablo Reis said...

Apela para Sílvio Santos, com o banco Panamericano e os computadores Positivo. Tem muita cliente do Baú feliz por achar que está pagando uma bagatela...