Tuesday, May 8, 2007

Isso ou aquilo?


Um dos pontos que o professor André Lemos ressaltou, na primeira aula do módulo de Cibercultura, foi a necessidade de pensarmos as novas tecnologias sem dicotomias. Não é interessante analisar as transformações apenas pelo lado bom ou mal da coisa.

Lemos acredita ser mais coerente entender o processo como um todo, não caindo em armadilhas como pensar que os podcasts são ruins porque vão acabar com o rádio, por exemplo. Ou que a liberação do pólo emissor vai tornar o mundo mais livre e melhor.

Em uma matéria publicada hoje, o jornal Tribuna da Bahia traz as “conseqüências” dos avanços tecnológicos. O repórter Hélio Rocha defende, em seu texto, que as promessas de que a tecnologia digital iria deixar “o mundo mais limpo e as pessoas mais saudáveis” não se concretizaram. É nítido em seu texto uma tomada de posição para o lado catastrófico do processo: “O que se vê são toneladas de sucata despejadas diariamente nos aterros sanitários em todo o mundo, contaminando a atmosfera, o solo e as fontes de água potável com metais pesados e substâncias tóxicas nocivas à saúde dos seres vivos”.

Ele ressalta alguns pontos positivos do que chama de “revolução proporcionada pela tecnologia digital”, mas é sempre enfático ao apresentar tudo de ruim que isso acarreta. As manchetes falam em “Lixo Digital” e “Atividades altamente tóxicas”.

Como a Tribuna não tem arquivo de memória de suas notícias, vou postar aqui a matéria na íntegra. Amanhã, ela não vai mais existir no site...

Entre o luxo e o lixo digital

Editoria: Salvador, pg 07

A tecnologia digital surgiu com a missão de facilitar a vida das pessoas. Como num passe de mágica, equipamentos pesados e montanhas de papel desapareceriam dos escritórios dando lugar a computadores portáteis e fáceis de manusear. O mundo seria mais limpo e as pessoas, mais saudáveis. Só que o caminho entre o luxo e o lixo tecnológico foi mais curto do que se imaginava. Passada a febre inicial do consumismo desenfreado, o que se vê são toneladas de sucata despejadas diariamente nos aterros sanitários em todo o mundo, contaminando a atmosfera, o solo e as fontes de água potável com metais pesados e substâncias tóxicas nocivas à saúde dos seres vivos.

Nas últimas décadas, a tecnologia digital revolucionou o mercado com uma série de novos produtos: computadores pessoais de todas as formas e tamanhos, telefones celulares, i-pods, aparelhos de MP3, MP4, DVDs e muitos outros que se tornaram o sonho de consumo da maioria das pessoas com algum poder aquisitivo. Durante os anos 90 existia até mesmo uma pressão para o uso da tecnologia – como se quem não tivesse um telefone celular e computador em casa fosse regredir até a Idade da Pedra. A nova tecnologia não substituiu a antiga e muitas das invenções já existentes, como o rádio e a TV, também passaram a usar circuitos digitais. Hoje praticamente todos os equipamentos eletro-eletrônicos têm algum tipo de computador “embutido”: desde automóveis até o mais simples dos fornos microondas.

Como era de se esperar, em pouco tempo, a grande quantidade de lixo tecnológico produzido – também conhecido como “E-lixo” – começou a assustar os governos dos países desenvolvidos e organizações de proteção ao meio ambiente. Os dados são alarmantes. Calcula-se que até a metade da década em curso, quase meio milhão de computadores já haviam sido descartados em todo o planeta, contaminando o ecossistema com três bilhões de quilos de plástico, 700 milhões de quilos de chumbo, um milhão e meio de quilos de cádmio, um milhão de quilos de cromo e 300 mil quilos de mercúrio. Isso sem contar com 1, 4 bilhão de aparelhos de telefone celular que devem parar no lixo até 2010. Para se ter uma idéia, se todos os computadores jogados no lixo fossem colocados juntos, a fila teria 126 mil Km de extensão, o suficiente para dar mais de quatro voltas ao redor da Terra.

Apesar de o Brasil ser um país em desenvolvimento com grande extensão territorial e baixos índices de inclusão digital, muita gente já vem sentindo na pele os efeitos da sucata tecnológica. O professor de Ciência da Computação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Raimundo Macêdo, lida com computadores há mais de 20 anos, desde os tempos das antigas máquinas IBM. Por volta do ano 2.000, Macêdo começou a ter problemas de espaço para guardar computadores quebrados da universidade. “Ao mesmo, tempo, existia uma pressão muito grande para que renovássemos o equipamento do laboratório com uma velocidade cada vez maior”, acrescentou. Macêdo tentou doar as máquinas velhas, mas descobriu que não era uma tarefa fácil, já que a reciclagem desse material ainda é praticamente desconhecida no Brasil. Começou então a estudar o fenômeno por conta própria e ficou impressionado com o alto potencial tóxico envolvido na produção, uso e descarte de circuitos digitais. “No início era apenas uma reflexão sobre o consumo demasiado de tecnologia. Depois fui vendo que o problema é ainda mais grave. Além de ser um tipo de lixo que cresce em uma razão muito maior que outros, também possui conteúdos que são extremamente prejudiciais à saúde”, conta.

O professor começou a desenvolver um trabalho pioneiro na Bahia no sentido de alertar as pessoas sobre os efeitos nocivos da tecnologia. Desde então vem divulgando os resultados de suas pesquisas em palestras e seminários por todo o Estado. Segundo ele, a poluição tecnológica ocorre de três formas: na produção, no uso e no descarte do equipamento.

Produção de computadores é uma atividade altamente tóxica

A tecnologia da computação é baseada no beneficiamento de um elemento químico conhecido como silício – um semicondutor natural de eletricidade utilizado na fabricação de placas, circuitos, discos e “chips” eletrônicos, conhecidos como “semicondutores”. O silício é a substância mais comum na natureza depois do oxigênio, utilizada também como matéria-prima do silicone.

O professor Raimundo Macêdo explica que a industrialização do silício é uma atividade altamente poluente. Além do perigo para os empregados das fábricas que lidam diretamente com substâncias tóxicas, a produção representa risco também para as comunidades vizinhas aos pólos industriais. O processo em si envolve grandes quantidades de solventes e gases tóxicos – dentre eles o temível CFC – responsável pela destruição da camada de ozônio e pelo fenômeno do aquecimento global. Calcula-se que para cada quilo do material beneficiado sejam produzidos três quilos de E-lixo. A produção de um pequeno “chip” eletrônico do tamanho de um botão requer cerca de 72 gramas de substâncias tóxicas e 32 litros de água limpa. O resíduo geralmente é guardado em tanques subterrâneos que podem vazar e contaminar o ecossistema local.

O professor cita o exemplo da região do Vale do Silício (Silicon Valley), na Califórnia, EUA, verdadeira “Meca” da computação mundial. Apesar da beleza e da aparência limpa da paisagem, a região é uma das mais poluídas daquele país. Na década de 80, descobriu-se que 85% dos reservatórios de detritos químicos das fábricas IBM e HP apresentaram vazamentos que atingiram o fornecimento de água potável das cidades vizinhas. “Nos anos seguintes, o número de crianças nascidas com problemas congênitos foi três vezes maior que no resto do país, e muitas das mulheres que trabalhavam nessas fábricas desenvolveram câncer de útero e ovários”, conta. Segundo ele, o contato com essas substâncias pode causar também outras doenças como câncer de pele, catarata, problemas de coração e disfunção hormonal.

A Bahia tem seu próprio Polo de Informática na cidade de Ilhéus, região Sul do Estado. A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Meio Ambiente para saber que medidas vêm sendo tomadas para minimizar o impacto da atividade industrial. De acordo com representantes da Secretaria, a competência para fiscalizar o Polo de Informática de Ilhéus é do Centro de Recursos Ambientais (CRA). Já a assessoria do CRA disse desconhecer o assunto. Segundo eles, “a competência ‘deve ser’ (sic) da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Ilhéus”. Infelizmente, os assessores do CRA também não souberam informar o nome do secretário ou o telefone da Secretaria Municipal de Meio Ambiente daquela cidade.

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