Wednesday, July 11, 2007
Jornalismo Literário - Deus existe!
- Ah! Se eu pudesse não levantaria dessa cama hoje. Aí, meu estômago está doendo, estou morrendo de fome. Acho mesmo que vou é morrer de fome. Não tem nada para comer aqui. Pensou Esmeralda (Esmeralda, uma bela jóia. Mas que absurdo, uma mulher com nome de pedra preciosa jogada assim, ao descaso) na noite escura de uma quinta-feira de abril. Ela tentou levantar, mas não conseguiu, estava muito fraca.
É muito humilhante, uma mulher, mãe de oito filhos, avó de outros tantos, passar por privações no fim da vida. Foram 76 anos dedicados aos filhos, netos, bisnetos e agora, na fase final da vida, ficar assim, jogada no canto como uma boneca velha com quem ninguém mais quer brincar. Quanta injustiça. Chega a ser desumano.
Esmeralda levanta-se com dificuldades e vai até a mesa, também conhecida como Bela, ou velha Maroca (esse apelido é utilizado exclusivamente por dois sobrinhos-netos), fica ainda mais abatida quando percebe que não há quase nada para comer, na verdade, só lhe resta um pouco de leite em pó e meio pacote de macarrão cru. – Para completar, o gás já está para acabar e eu não tenho mais um centavo, lamentou.
– Será que sobrevivo a mais essa noite? Questionou ao próprio corpo. Toc, Toc... - Quem será, tomara que seja Binha com um pedaço de pão. Não, não deve ser, aquela infeliz da mulher dele não o deixaria vir aqui há essa hora. Na verdade, aquela miserável quer mesmo é que eu morra. Tô com fome. Toc, Toc... - Bela, Belaaaaaaa, vc está ai? Ah! É Zene, graças a Deus! – Já vou, espera um pouco que estou indo, respondeu enquanto caminhava se apoiando nas paredes do quarto e sala mal iluminado.
Chegou minha salvação, pensou ao abrir a porta e dar de cara com a sobrinha. Quem será essa mulher que está com Zene? Que vergonha, não tenho nada para oferecer a ela. Puxa! O que será que ela vai pensar de mim. Ela vai achar que eu morri e esqueci de deitar. Mas eu estou mesmo parecendo uma caveira, só que com muita pele sobre os ossos.
Meu Deus! Pensaram as visitantes quando se entreolharam após ver Esmeralda ali, apoiada na porta, só a pele e o osso. Os olhos das duas ficaram, visivelmente, úmidos, mas elas tentaram disfarçar, entraram e conversaram o mais naturalmente possível.
Vixe! Como ela está magrinha, pensou a sobrinha no mesmo instante em que se ofereceu para preparar algum alimento. Não há mais saída, não posso mais esconder a minha situação, talvez seja até bom. Na verdade tudo é melhor do que morrer de fome, é isso, não é hora de ficar envergonhada, vou confessar. De repente, lágrimas e soluços, Belinha não resistiu e caiu no choro enquanto contava as condições deploráveis em que estava vivendo, nem o remédio, necessário para controlar a pressão alta, tinha condições para comprar.
Apesar de tudo, o que deixava Esmeralda mais triste era o fato de que, no momento em que mais precisava de apoio, nenhum filho ou neto estava ali para apóiá-la. Ninguém. – Está decidido Bela, você vai lá para casa, amanhã vamos ao médico e você vai ficar comigo, pelo menos até melhorar e ganhar uns quilinhos, anunciou a sobrinha. – Deus existe! Finalmente encontrei alguém que me ama e cuide de mim. Graças a Deus. Aliás, adeus morte, vai visitar outro, a mim você não leva mais. Desista! Não vou morrer. Mas ainda estou com fome!
Jornalismo Literário - Quando o sol esfriar
Yuri Almeida
Ela queria só andar um pouco de bicicleta. Mas o pai insistiu que o sol estava quente: muitooooo quente Samantha, os raios ultravioleta são prejudiciais à saúde... é o que ele sempre diz....é, só resta esperar.
Ela procurava as bonecas? Ah! No final do balde...tirou o conjunto de panelas, miniaturas de um leão, cavalo, boi, tigre, camelo. Hum...achou a maquiagem, quando o sol esfriar e for andar de bicicleta passarei no meu rosto...continuava a procurar a boneca? Ali, mas no fundo, só restava tirar o balde de praia e a bolinha pula-pula. Pegou. Estava sem a saia, só com a blusa...toda suja. Chamou a boneca, para dar-lhe um banho...
Abri a torneira, a pia estava sem sabonete... pegou o dela! A sua saboneteira é azul, a de seu pai é um verde desbotado, ele não gosta de lavar. Fica sempre junto da filha. Em cima a de vovó Lene, não tem cor, dá para ver a tonalidade do sabonete e a na prateleira de baixo, tio Ícaro e tio Ian dividem a saboneteira amarela, sempre cheia de água. Vovó Lene sempre briga, porque o sabonete acaba mais rápido.
O seu é de criança, bem pequenininho e tem cheiro de morango. Molhou o rosto da boneca, passou o sabonete de morango, esfregava bem...voltava abrir a torneira, esfregava, esfregava, opa! Fechou a torneira para papai não brigar...abriu novamente, a água saia da torneira limpinha, enfiou a cabeça da boneca debaixo, gotas vermelhas, pretas, rosa, azul, amarelo formam um arco-íris na pia, a cara da boneca estava quase limpa...mais um pouquinho de sabonete vai resolver, shac, shac...bem forte esfregando os dedos sob a cara da boneca. Pronto. Estava limpa...
Já dissera para não colocar a sua toalha no banheiro para enxugar o rosto. Ainda mais essa do ursinho, a que ela mais gostava...Estava toda molhada, xiiii, molhou o cabelo dela também. Levou a boneca, agora limpinha para o quarto ficar com suas amiguinhas. Uma do lado da outra, Samantha fico no meio, era mãe e a boneca a sua filha... agora iria trocar de roupa..Futucou o balde... esse pedaço de pano deve serviu... Olhava atenta o sol pela janela. Finalmente o pai olhou para o relógio, olha para ela, abri a boca, os lábios se mexeram, uniram-se as letras, formaram as sílabas, ganharam tonalidade, nasceu a palavra S-O-L. Esfriou...
Você fica aqui filhinha e saiu à procura da sua maquiagem.
Jornalismo Literário - Descobrindo um sinal no peito
Momento mais esperado do dia. 19h. O trabalho acaba. Passar o cartão de ponto na catraca, procurar nas profundezas do bolso um vale-transporte amassado que tinha economizado com a carona de ontem. Descer ladeira, pegar ônibus. Rangel, um moreno ligeiramente atlético de quase trinta anos, que aparenta pouco mais que vinte, esperou por alguns minutos. Mais outros. Ônibus, finalmente, às 19h30. Subiu rápido, como se sua pressa pudesse imprimir velocidade às rodas daquele ônibus branco, velho, lotado.
A distância relativamente curta da sua casa até o trabalho parecia agora infinita. A Paralela estava gigante. Mil pedaços dela se apresentavam diante dele, agoniado, apressado, quase que com taquicardia. A parada em casa seria rápida, mesmo que a contragosto. A droga da academia não poderia ser paga à toa. Exercícios durante 50 minutos, no máximo, já seriam suficientes. Barras, bicicleta, esteira. Nada de panturrilha ou coxa hoje. Rápido, rápido. Nem mesmo abdominais. Mais rápido. Desce escadas, sai na rua.
Atravessa a rua, correndo, sinal quase no vermelho. Dobra a esquina, mais dois quarteirões, rua de casa. O pedinte que ficava sempre em frente ao seu prédio estava lá novamente. Logo hoje, junto com a pressa.
- E aí, amigo, tem aquela moedinha pro café hoje?, diz o homem maltrapilho repetindo a mesma conversa de todo santo dia.
Rangel procura por algum troco que ele nem imaginava ter. Lá no fundo do bolso, a mão direita toca algo frio. Ufa, uma moeda.
- Tenho sim, toma aqui, livrando-se com destreza da situação.
Tinha arrancado distraidamente uma moeda do bolso. Era de um real, quantia que ele não dispensaria facilmente a qualquer um dos milhares de pedintes que encontrava todos os dias na rua. Mas naquele momento ele não poderia esboçar qualquer reação contrária. Abriu o portão pesado de ferro, pintado num tom de cinza sóbrio, e subiu pelas escadas. Eram só três andares, seis lances de escada, até complementariam seus poucos exercícios físicos do dia.
Entrou em casa, viu de relance seu irmão jogado no sofá e sua mãe vendo alguma coisa na TV no quarto ao lado.
- Ué, chegou tão cedo da academia..., indaga a mãe, que bem conhecia seu disciplinado filho quando o assunto era saúde.
- Tô cansadão hoje. E tenho uma coisa importante pra ver na internet, responde, com todo o jeito de quem quer encerrar de vez o diálogo que a mãe insistia em travar nos momentos mais impróprios.
- E não vai comer nada? Nem tomar banho? Essa roupa molhada de suor ainda vai deixar você gripado, continua a mãe devotada, sempre preocupada com o bem-estar do seu caçula.
- Comer eu até vou, mas banho só depois. Agora Rangel encerraria mesmo a conversa.
Entrou na cozinha ainda em seus trajes de ginástica e engoliu o complemento alimentar que substituía sua refeição noturna, técnica que utilizava para não ganhar peso. A meta era comer bem, malhar regularmente e aumentar sua massa corpórea, que se encaixava de forma perfeita ao seu corpo de pouco mais de um metro de setenta.
Nem pensou em tomar banho. A camisa suada foi jogada displicentemente em algum lugar do banheiro. Rangel jurava que outra hora arrumaria tudo aquilo. Agora, tinha algo inadiável a fazer. Entrou no quarto, uma mão tentando se livrar do tênis e da meia ensopada, a outra já pressionando o botão do estabilizador e da CPU. Até seu computador parecia ter aderido à lentidão que o acompanhou durante os últimos momentos do dia.
Finalmente. Computador ligado. O mouse procura rapidamente o ícone do Internet Explorer. Conexão lenta. Discada. O pai nunca escutara seus pedidos insistentes, quase desesperados, pela banda larga. E-mail pessoal. Gmail, amigo da lentidão. Abriu. Mais de vinte mensagens não lidas. Os olhos corriam pela tela, em busca de um item em negrito. Descartava todos os spams e correntes, todos os documentos em powerpoint. Outra coisa naquela noite lhe cairia melhor como injeção de ânimo.
E-mail encontrado. Abriu. Para facilitar, tudo no corpo do e-mail, nada de anexos que demoram pra abrir e de quando em quando infectam o computador. Seis parágrafos. Uma descrição dele mesmo, feita sob o ponto de vista de uma mulher que conhecera há pouquíssimo tempo. E que já sabia do seu sinal de nascença, localizado no peito esquerdo, bem do lado do coração. Sabia da sua família, do seu jeito de ajeitar a barba, das suas aflições. Não podia concordar com alguns detalhes do que lia, mas grande parte daquelas letrinhas em fonte Arial dizia, sem pudores, o que ele realmente era.
Ele estava ali, desnudo. Nenhuma máscara poderia ajudar a cobrir aquele menino sem casca sentado em frente ao PC. Metade embasbacado, metade feliz. Teve tempo de esboçar um sorriso, espantar uma mosca que posava na tela, ler o texto novamente. Chega dessa mistura de alegria, orgulho e não-sei-nem-o-que-dizer por hoje. Desligou o computador. Já passava das 22h. Guardou o tênis embaixo da cama, juntou a meia escura com a camisa largada no banheiro, colocou preguiçosamente no vaso de roupa suja.
Olhou feliz e cansado para a mãe, que ostentava um clássico de Dostoievski nas mãos. Ela se distraiu da sua leitura e retribuiu com o olhar terno, como de costume. O irmão já dormia no sofá. Calou a TV e ouviu o ronco do pai no quarto. Entrou no banheiro e se deu conta, pela primeira vez, como era diferente sentir a água gelada percorrer seu corpo e inundar o sinal no peito. A marca de nascença estivera ali, desde seu primeiro dia de vida. Nunca fora figura importante para ele. Citado como dono de misteriosos encantos na descrição da qual era protagonista, aquele sinal era mais que uma mancha um pouco mais escura que o tom natural de sua pele. Era agora uma arma, carta na manga, inseparável patuá.
Jornalismo Literário - Rotina de família

Adriana Alves
Andrea acorda às 6h mansamente sobre a brisa da manhã e vai desfilando sua beleza para o banho matinal. Gosta de se sentir bonita e cheirosa durante o resto do dia para dar conta das tarefas do dia. Pega a toalha de seda lentamente, quase que caindo de sono, mas se lembra que tem de estar de pé. Para acompanhar no seu magnífico e sublime banho, não esquece jamais seu estoque de cremes: para limpeza de pele, poros, adstringente, tônico facial, para combater espinhas, acnes, embora tenha uma pele limpa, sabonete líquido. Ela já nascera com esse pequeno e incômodo vício: a de passar horasss a fio no banho, se embelezando, limpa aqui, limpa dali, o ato de passar infinitos cremes causa arrepios.
Dez minutos depois, o irmão Rodrigo já está de pé. Alto, magro, tem olhos mutáveis: tem dias que estão verdes, outros castanhos bem clarinhos, ninguém sabe ao certo a cor. Assim como a irmã, tem manias. Gosta de tomar banho antes de tomar seu café matinal regado a toddynho e um pão assado na sanduicheira. Mas as horas passam, acorda mãe, pai, a sobrinha que vai ao colégio - esta já tomara antes de Andrea. Todos acordam, começam a programar seus dias, mas Andrea continua lá, no seu deleite matinal.
Esquece também que ela tem tarefas para cumprir. Teoremas, álgebras, fórmulas matemáticas, física quântica, trânsito, cansaço, o mesmo repeteco do ano anterior. Passa a maior parte do tempo agarrada aos livros e intermináveis apostilas para tentar passar no vestibular. Porém, não sabe ao certo se quer enfermagem ou psicologia. Sabe que quer seguir a carreira acadêmica e se esforça para isto. Mas o banho não termina e também não se esforça para amenizar a situação. A vontade de estar limpa é mais forte e ela não resiste. Vai dá tempo, vai dá tempo.....Tinha que estar no cursinho às 7h15 da amanhã e ela jura que dá tempo.
-pápápápá!!!!!!!-bate o irmão com toda força na porta. Vai demorarrrrrrrr ainda ôuu!!!!! Tenho que ir por trabalhooooooooooooo powwwwwww!!!!, grita Rodrigo, o irmão mais velho, aquele que acordara dez minutos depois e lutava para conseguir tirá-la de lá.
Andrea faz ouvido de mercador, como sempre lhe dizia seu pai. Mas por que tanta pressa deste garoto? Já devia ter se acostumado. Sabe que as mulheres demoram mesmo, elas querem ficar lindas, cheirosas, maquiadas pelo resto do dia, senão da vida. Neste momento, Andrea, a bela da manhã, ainda nem estava na metade do banho. Tinha começado a se lambuzar de cremes e mais cremes. Tudo isso para conservar a pela macia, como a de bebê e não estava nem aí para as reclamações. Era vaidosíssima. As horas vão se passando lentamente para ela. Cada minuto era ainda mais apreciado. Do lado de fora, a mãe, que já acordara, e o irmão mais velho, já estavam impacientes com a tamanha demora da moça.
E batem na porta, imploram para ela sair. Esboçam reações e ameaças. Ficam zangados, lamentam que ela tenha cursinho tão cedo. Rodrigo, que nunca se intrometera na vida de Andrea e tinha um carinho enorme pela irmã, sugere então para que ela mude de horário, pois assim não atrapalharia ninguém. A mãe concorda para amenizar o clima na casa. Mas Andrea ainda não está pronta. As águas cristalinas e mornas caíam levemente sobre os cabelos loiros dela e seu corpo logo fica ensaboado com os resquícios do shampoo. Adora esta parte, a água quentinha, limpinha, tirando todo o grude que arraigava no seu corpo suado da transpiração da noite. Não se apressa por nada. Nem se perder mais uma aula no cursinho ou chegar atrasada. Queria mesmo era ficar limpinha, demorar-se no banho, satisfazer seu desejo pessoal. Agora era vez do condicionador. Este é mais rápido, mas, mesmo assim, ela não queria passar com rapidez, gostaria de passar lentamente, pois acreditava que os cabelos ficavam mais sedodos e com mais brilho.
O irmão enfurecido e a mãe, que também tem que ir por trabalho, já não aguentam mais todo dia esta rotina estafante: sempre restam dez minutos para cada para ir ao banheiro. Ficam resmungando. Resmungam e resmungam.
Neste dia, Rodrigo quebra um ritual que faz há anos: toma café antes de tomar banho. Estava p. da vida com a irmã. Era o jeito, fazer o quê? Já estava cansado de tanto bater na porta. O relógio marcava 6h40 e todo o terror ja tomava conta da casa. A empregada, apelidada de "Nenem", chega para cumprir mais um dia de sabatina. Logo percebe a tensão que toma conta de Rodrigo e a mãe. Entra, dá um tímido bom dia e já sabe: Andrea está no banheiro. Meu Deus, será mais um dia de estresse, tem certeza disso. Nenem já sabia que Andrea demorava para se arrumar. Era coisa de mulher, era coisa de mulher...repetia em sua mente enquanto começava os serviços domésticos. Sabia que toda mulher demora, mas, logo no iníco, ficou surpresa pelo arsenal de cremes que ela usa. E as reclamações não pararavam.
Andrea finalmente termina seu longo e demorado banho. Já são quase sete horas e ela está atrasada para o cursinho, atrasou a vida do irmão, da mãe. Do banheiro, escuta as broncas, lamentações. Abre a porta lentamente. Deixa o banheiro impecável para o próximo a entrar.
Sai prontíssima para o café: maquiada, cheirosa, limpa. Dá de cara com o irmão raivoso na porta do banheiro, com a toalha na mão. Os dois se olham. Não trocam bom dia. Então, antes de permitir a passagem para seu irmão finalmente tomar um belo banho, ela rapidamente esbraveja:
-Ai meu Deusssssssssss, não acreditooooooooooooooooooooooo!!!!! esqueci de passar o rímel!!!!Não saio sem eleeeeeee!!!!!!!!!
Ela volta então para o banheiro deixando a mãe e o irmão na beira de um ataque de nervos, desajustando suas rotinas diárias.
Jornalismo Literário - Sinceridade
Ai que calor. Ela não suporta calor. Também não suporta praia. E detesta avião.
Do alto dos seus 64 anos, Roxana pensou: minha bunda não cabe nessa cadeira pequena que cada dia que passa fica menor e mais desconfortável, essas companhias aéreas não pensam nas senhoras que já são avós e gordas e têm que viajar pra visitar os netos mas com suas bundas grandes ficam todas apertadas nas cadeiras desse avião. Ai! Só mesmo pra reunir a família e ficar perto dos netos. Às vezes tenho vontade de morrer logo pra não ter que enfrentar essas cadeiras de avião e esse bafo quente que dói o rosto de quem tá saindo do aeroporto de Salvador.
Mas vamos lá, vamos em frente. Tenho 3 filhos e 2 moram longe. Tenhos 3 netos e 2 moram longe. É a minha sina essa cadeira de avião. Mas a viagem até que não atrasou tanto. Já demos os beijos iniciais. Foi bom ter vindo junto com minha filha mais velha, a Tati, e meu netinho mais novo, o Giggio. É ótimo quando eles se encontram com a Renata - a do meio, e os filhos dela. No fundo adoro quando vejo a Renata e a Tati juntas, são mesmo irmãs unidas.
- Mãe, tudo bem? Como foi a viagem?
- Tudo ótimo; a viagem foi tranquila.
Tranquila nada, com aquele cara ao lado falando sem parar e eu querendo dormir porque acordei às sete da manhã. Mas deixa ela pensar que foi tranquila.
- Filha, você ainda está com esse carro velho? Nossa, ele é forte mesmo, é de que ano?
- 97....
Ai meu Deus, esse carro está caindo aos pedaços, queria tanto ter dinheiro pra comprar um carro novo pra ela. Mas os mais novos têm que ralar mesmo. Se pelo menos eu tivesse mais dinheiro guardado na poupança... Mas o que tem lá é pras emergências médicas, e eu com essas dores eternas e cracas de velho vou mesmo precisar de dinheiro guardado.
- Ná, você engordou um pouquinho né?
- É....
Um pouquinho nada, foi muito mesmo. E essa roupa tá engordando mais ainda. Ai, essas meninas a vida toda lutando contra a balança... Tudo culpa minha, devia ter sido mais rigorosa e proibido as seções diárias de batata frita.
- Filha, que bom que você comprou seu apartamento este ano. Só precisa de umas reforminhas né?
- É....
Reforminha nada, tem que botar a casa abaixo e construir de novo. O piso é velho, tem parede descascada, as janelas precisam ser trocadas, banheiro e cozinha então, nem se fala. O apartamento é grande e tem uma bela vista, mas nesse estado, não sei não....Vamos ver quanto tempo ela vai demorar pra reformar isso tudo.
- Filha, te amo viu?
- Eu também mãe.
É bom ser sincera aos 64 anos.
Jornalismo Literário - No avião
Há mais de um ano, João vivia naquela situação. Num belo dia do mês de setembro de 97 foi chamado à sala do seu chefe que anunciou não mais precisar dos seus serviços. A ficha demorou a cair. Logo ele que acabara de ser promovido, estava agora sendo demitido do emprego que era a sua vida. Nele passava pelo menos seis dias por semana, sempre trabalhando durante mais de dez horas por dia. Em muitas ocasiões abriu mão da folga semanal, pois aquela empresa era mais que uma fonte de renda. Era também sua fonte de amizades, respeito e amor, já que lá trabalhava também sua namorada Maria, além dos seus mais próximos amigos. Folgar pra que? Pensava com freqüência.
De repente perdera tudo e, com o passar do tempo, foi perdendo também a paciência com aqueles poucos amigos que ainda o procuravam de vez em quando, sempre perguntando se havia surgido alguma oportunidade de trabalho. Mas não era a pergunta em si que o incomodava, e sim, a forma. O tom de voz dos amigos era sempre de lamentação, como se João fosse incapaz de conseguir um emprego e estivesse fadado ao fracasso. O olhar era de piedade, como quem olha para um mendigo ou cachorro faminto e não tem nada a oferecer.
Aquilo o deixava com muita raiva, mas o único culpado era ele mesmo. Perguntou-se várias vezes se não estava com pena de si mesmo e, por isso, assumiu inconscientemente o papel de coitadinho. Aquilo precisava acabar e, por isso, resolveu mudar tudo, reunindo suas
últimas economias e embarcando para Maceió, cidade onde moravam alguns membros da familia. Renascia a esperança.
Quatro meses após ter embarcado com a roupa do corpo para a capital alagoana, estava novamente em um avião, agora voltando para Salvador, onde certamente encontraria as mesmas pessoas que o magoaram, ainda que involuntariamente. Imprensado entre as apertadas poltronas do avião, pôs-se a ponderar sobre o período em que morou em Maceió. Teria sido a viagem uma fuga covarde da realidade? Ou quem sabe uma forma corajosa de mudar para melhor o seu destino? Lembrou-se de quando chegou à cidade, sendo recebido com frieza pelos parentes locais. Estava então sem rumo, sem amigos, solitário, porém esperançoso. Pensou, com um leve sorriso no rosto, no primeiro dia na cidade, quando, por uma coincidência incrível, foi procurar emprego justamente na empresa de sua irmã por parte de pai, a quem nunca conheceu e nem desejava conhecer.
- Essa vida nos prega peças! Sussurou.
E, finalmente, foi invadido por uma sensação de felicidade ao lembrar das pessoas que conheceu nas lindas praias da cidade e das mulheres que fizeram seu coração maltratado pulsar novamente com alegria. Tomado por este repentino bem estar, pôde, enfim, ter a certeza de que a viagem não tinha sido uma fuga, mas, sim, uma volta por cima com estilo. Encostou-se então na poltrona reclinável do avião e dormiu um sono tranquilo até a hora de desembarcar em mais uma etapa de sua vida.
Jornalismo literário - Tô com fome!
Contém 3 ml de solução diluente e um frasco de penicilina em pó. Enquanto o elevador subia vagarosamente até o décimo andar, eu aproveitava para ler a bula do Pentacilin C, mais uma tentativa para eliminar uma infecção no fígado grave. Seria leptospirose? "Trec".
Do corredor, ela ouviu o barulho da porta. Nem mesmo 15 anos são capazes de tirar um dos sentidos mais aguçados dos cães.
- Ela chegou, finalmente.
Nenhum xixi aparente no chão branco da pequena sala de minha casa. Bom sinal, pelo menos voltou a controlar a bexiga, um tanto frouxa a essa altura da vida. Ainda mais com a fosfatáse e os leucócitos "lá na casa do chapéu", conforme me traduziu a veterinária, com o hemograma de Pupi nas mãos. Deve estar quietinha na cama vermelha do tamanho exato do seu corpo, uns três palmos, única alternativa encontrada por ela para vencer a dor de carregar um abcesso na altura da pata dianteira. Mal apareci no corredor, os olhos grandes e já vívidos me fitaram, como se quisessem me fisgar logo de cara. Deve ter associado que reunir as forças ainda restantes e, ao menos, sentar-se certamente indicaria alguma mudança em seu estado de saúde. Três dias sem comer, você nunca ficou sequer um dia inteiro sem ao menos um pão com café! As costelas, resultado do jejum forçado, ficaram ainda mais aparentes. Os olhos da beagle, tricolor de nascença e grisalha pela força do tempo, impiedoso também com os animais, continuavam me fitando.
- Um bifinho.
Me aproximo para um afago - serão seus últimos dias?. 'Pupinha, Pupinha' agora não.... Ainda sentada, Pupi arrisca ser mais explícita no olhar, que encontra o armário e volta para mim, como se estivesse óbvio que a gula, pecado capital maior dos cães de mesma raça, tinha voltado, à medida que o tratamento veterinário começava a surtir efeito. Será mais um dia com fome? Abro o pacote de bifinhos caninos sabor churrasco, perdição da "Gorda", apelido recebido nos primeiros anos de vida e que agora soava fora de contexto. Quem sabe hoje ela come, são os preferidos. Ela permanece imóvel, sem acreditar que a estratégia deu certo. Quando aproximo o petisco, "nhac", de uma mordida só. Foram mais dois em seguida. Desejo satisfeito, ela volta a se deitar em seu leito. Se pudesse sorrir, certamente o faria, não apenas para me agradecer, mas também para exibir o riso da vitória, de que valeu a pena ficar um minuto resistindo à dor de se apoiar naquela maldita pata com o tumor, para receber um bifinho.
- Ainda era sabor churrasco!
Jornalismo Literário - Vendedora atrasa lado!

Soraia Veiga é uma daquelas jornalistas que viajam no tempo e no espaço. Nos encontramos essa manhã na Estação Mussurunga e, enquanto aguardava o ônibus para chegar até o trabalho, ficou observando fielmente a movimentação das vendedoras de cartão. Pensou que as vendedoras de cartão deveriam estar estudando, mas só pensam em pagode.
A Estação Mussurunga, mais uma vez, fica cheia de vendedores de cartões da C&A e da Riachuelo. Mulheres que, em sua maioria, estão vestidas numa calça de tecido colante, que faz parte do uniforme. Elas perturbam os juízos dos passageiros, interrompendo-os de hora em hora com a mesma pergunta, o mesmo sorriso e o mesmo uniforme.
Soraia, ao contemplar o vai e vem das vendedoras, sorriu disfarçadamente. E daquela vez que uma delas bloqueou o caminho de um jovem que carregava uma mochila pesada, com fedor de mofo, e, incisiva, quase indecente, convidou-o para fazer o cartão e ele disse que já tinha o cartão? O rapaz estava quase corcunda por causa da mochila, desviou da vendedora e foi para o ponto de ônibus.
O ônibus chegou que ela nem percebeu. Levou uma cutucada nas costas de um senhor que estava logo atrás na fila. Entramos no ônibus e seguimos viagem.
Jornalismo Literário - Tantas emoções
O despertador tocou às 6h da manhã. A luz do sol já clareava o quarto mesmo por detrás das cortinas. Ela levantou da cama, como sempre, por superstição, pelo lado direito, vestiu seu roupão de seda azul-marinho e caminhou até o banheiro para escovar os dentes. Mais um dia como tantos outros. Já na cozinha prepara o café da manhã. Pára e fala para a chaleira que hoje poderia ser diferente, sua irmã que há anos sofre de pressão poderia levantar da cama sorridente e dizer que estava se sentindo tão bem como nunca esteve.
Mas, não. “Não! Não! Não! Tudo de novo não!” A tão sonhada cena não aconteceu. Sua irmã apareceu na cozinha aos prantos. Começou tudo de novo, “muita galinha e pouco ovo”. Esse é o bom dia de Dona Odete, aposentada do serviço de secretária, mas ainda na ativa como dona de casa. No edifício em que reside há 25 anos, quase todos dormem ainda. Só em um ou dois apartamentos já há movimento.
Como era boa a época do trabalho. Desgastante, corrido, muita coisa para fazer na empresa. Telefone, fax, correspondências, pedidos, relatórios, inúmeros relatórios. Um martírio pegar ônibus. Dois coletivos da residência até o trabalho, na Lapinha. Ela pegava, não se queixava, era o que tinha que ser feito, seu filho reclama que odeia pegar ônibus. Ele quer um carro. Ela quer ganhar na loteria. Um carro para ele, uma casa para sua neta, filha de seu primeiro filho.
Não é muito fã de cozinha mas, quando entra em uma, faz qualquer comida com “muito amor e carinho”. Como dizem que toda boa cozinheira tem seu lado bruxa, ela não dispensa o uso de umas palavrinhas mágicas que não revela a ninguém. “Tanta conta pra pagar!” Volta para casa e mal chega já é hora de pensar no jantar. Depois do almoço, descansa alguns minutos na frente da televisão – gosta de assistir a novela da tarde e fazer seus artesanatos – mas, a responsabilidade de pagar as contas não a deixa ficar muito tempo na frente da tv. Sai apressada, entra em um banco, em outro e mais outro. É luz, telefone, celular, condomínio. Após a última refeição, não perde a mais uma novela global.
Nasceu em uma cidade próxima ao distrito do Porto, em Portugal. Dona Odete é a filha do meio de Armando e Margarida. Desde pequena sempre foi muito prendada. Costurar, pintar, bordar e outros serviços manuais sempre foram seu forte. Seu primeiro nome, Laurinda, é uma homenagem à sua madrinha, que ficara em Portugal. “Nome antigo, feio, tinha que ser coisa desse povo velho, de 1900 e antigamente”.
Como foi lindo o casamento, ela toda de branco, vestido bordado à mão. Enxoval inteiro bordado por ela. Até hoje ainda tem jogos de cama e mesa. Sempre foi apaixonada pelo rei Roberto Carlos. Fã incondicional. No som em seu quarto enquanto descansa um CD do ídolo roda na agulha. Tantas emoções. O pão está pronto. Pães caseiros são os melhores. O pãozinho e a lembrança do Natal de 1998, em Pernambuco, com sua irmã. Lembrou da chuva, ventos fortes, trovão, relâmpago. Um raio que caiu no terreno baldio ao lado da casa de sua irmã. “Ai meu Deus, minha Nossa Senhora! Santa Bárbara nos proteja!” Enquanto isso, na cozinha, a massa de um bolo estava cheio de terra, misturou tudo e levou ao fogo. À noite, o bolo foi servido e todos os convidados acharam uma delícia. A receita nunca foi dita.
Jornalismo Literário - Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?
Lazer definitivamente não existe, o trabalho vem em primeiro lugar, trabalhar muito só assim para manter o que conquistou durante a vida. Faculdade dos meninos e cursos para pagar, telefone, água, luz, condomínio, contas e mais contas. A saúde está debilitada, cirurgia por fazer de hérnia umbilical, artéria no coração para desobstruir, gastrite atacada. Falta tempo, deixar a panificadora longe dos olhos, a mercê dos funcionários e nas mãos de um garoto de 23 anos, seria praticamente deixar abandonada.
Daqui a sete anos, chegará a sua aposentadoria, dormirá na porta do INSS, não vê a hora, viajará para passar dias na fazenda, algo que não faz devido a correria do dia a dia, a propriedade fica aos cuidados de um caseiro. Poder usufruir todos esses anos de luta em um lugar tranqüilo.
Jornalismo Literário - O bolo
Disseram-lhe que ela já tava bem grandinha para ter medo de andar em passarelas. Mas aquela era a mais comprida que já tinha visto. Impossível não sentir medo. Impossível não dar cada passo sem imaginar aquele monte de concreto se abrindo embaixo de seus pés. Ela despencando com todo o seu peso. Três coisas prometeu a si mesma: um dia se livraria do seu cabelão na cintura, os quilinhos extras e o medo de passarelas. A única coisa que Julinha conseguiu foi cortar as madeixas.
Não tinha medo de altura. Viajava de avião. Explorava cavernas. É antropóloga. Enfrentou uma banca de mestrado. Por que esse medo? A passarela que avistava agora era questão de honra. Ela estava aos pés da monstra. Olhou para um lado, ninguém conhecido. Olhou para o outro, ninguém de novo. Ai, quem dera uma mão para segurar... Só uma mãozinha para apertar...
Começou a escalada. Aos poucos, avistava o teto do ônibus parado no ponto. Troço sujo. Todo empoeirado. De dentro já dá nojo, por fora então... Fala sério! Além do pânico, o joelho latejava. Onde esses arquitetos estão com a cabeça para planejar acessos tão íngremes? No fundo, no fundo, beeeeeem lá no fundo, aquela pontinha de culpa no cartório insistia em alfinetar. Quem manda ser sedentária?
Os passos eram curtos e lentos. Ô dúvida cruel! Se fosse ligeiro, poderia atravessar mais rápido. Também tinha mais chances de tropeçar no cadarço do sapato do outro pedestre que também estivesse andando depressa e assim não teria bons reflexos para segurá-la, evitando que caísse lá de cima. Carona filha da puta que lhe deu um bolo!
Agora, a parte plana. Os joelhos pararam de encher o saco. O problema já era outro. As luzes da passarela e dos postes. Pra quê tanta luz, meu Jesus? Estava ficando cega. Ergueu as palmas das mãos, escondeu uma parte delas. Saiu andando. Parecia maluca. Continuou andando. Mãos estiradas na frente. O que tanto olhavam para ela? Todo mundo podia fazer aquilo para proteger as vistas se estivesse fazendo muito sol. Só por ser noite passava a ser estranho? Se tava tudo tão iluminado.
Tremedeira. Carros pesados passando por debaixo da passarela. A tentação de olhar para a pista. Sabia que não devia olhar. Mas queria olhar. Não resistiu. Olhou. Xiii! Agora não tinha nem mais passarela, nem chão, nem buzú sujo, nem cadarço de sapato. Sumiu tudo. Lembrou da sua polaina multicolorida que usava quando criança, em Paris, quando morava lá. Do seu pai dizendo que ela era igualzinha a ele. Dos índios kiriris no sertão da Bahia e da oca onde teve que dormir por cinco dias para realizar pesquisas científicas. Tirou os olhos da pista. Essa passarela tem que acabar!!!
A descida se aproximava len-ta-men-te. Ela decidiu correr. Correu o mais rápido que pôde. Só pensava na agenda que carregava nos braços. Ela não poderia cair. Ali estava sua vida. As mãos suadas não ajudavam. Não, não ia cair. Estava segura. Tava acabando... Tava acabando... O ponto de ônibus. Acabou. Podia respirar aliviada. Piscar os olhos e umedecer o globo ocular. Por sorte, a sua condução estava parada logo ali. Entrou e sentiu o bafo quente. Carona filha da puta!
Jornalismo literário - Um pedido de Batian
Nas famílias italianas ela é a “nonna”, nas alemãs, “grossmutter”, nas baianas, “ô minha vó”, e nas japonesas, “batian”.
Batian acordou cedo como sempre, bateu o sino do santuário e falou aquelas três palavras enigmáticas. Bateu o sino pela segunda vez e começou o mantra, bem baixinho. Já estava esperando a terceira batida. É a partir daí que tem o lance do foguinho, do incenso e coisa e tal, mas parou tudo. Eu estava ouvindo do quarto ao lado, ainda na cama, como todas as manhãs. Podia ser apenas um sonho, o sino bateu a primeira e não bateu a terceira. Que sonho besta. Mas no sonho teve um chacoalhão. Abri um olho, o direito porque o esquerdo estava com remela, ficou colado.
– Shirubinha cômbra bêra. É um sonho, um sonho com a batian. Será que ela morreu?
– Shirubinha acôruda. Ufa, ela não morreu. Ela quer que eu acorde, deu pra entender, não deu? “Shirubinha acôruda”.
- Bom dia batian. – Cômbra bêra. - O quê? É o café da manhã? - Non, non, cômbra bêra pro batian. - Já sei, batian quer que eu vá ao mercado, “compre” alguma coisa. - Ê, ê bêra. - Já vou batian, quantas peras a batian quer? - Non bêra non, ê bêra, compra bêra.
Por que, Kamisama, por que eu fiz essa loucura? Cruzar o mundo em um navio e chegar nessa terra primitiva, de uma língua indecifrável. Disseram que seria um cruzeiro... um cruzeiro de três meses, enfrentando enjôo, falta de água, o calor infernal, os insetos monstruosos, feijão salgado, argh! Toda essa aventura para ter netos assim, que não entendem o básico, um pedido de uma batian. Será esse meu fim, Kamisama? Morrer incompreendida... Vou morrer sem poder fazer a última reverência à Kamisama....
- É vela! É vela! batian quer que eu compre vela, não é?
Jornalismo Literário - AHHHH!!!
Liz Senna
Ao desembaçar o espelho com folhas de papel higiênico, após um banho esfumaçado, Carol depara-se com uma imagem cruel, surrealista e nada amistosa em meio aos pedaçinhos brancos colados no vidro que se misturavam àquela terrível imagem. Diante do reflexo de um monstro perdido no meio de milhares de sardas, que mais pareciam confetes de carnaval, percebeu uma enorme erupção no meio de toda aquela juventude. Nada mais dramático para uma adolescente como ela do que uma imensa espinha no meio da testa para aumentar ainda mais a sensação de que sua vida já estava perdida, a beira do caos.
- Carol, o jantar está na mesa!
A voz soava como um imaginário perdido no meio de uma multidão.
...mesa, esa, esa, esa.....
Nada mais fazia sentido, no mundo cruel, onde todas as atenções e os holofotes estariam anunciando o fim do mundo. Balançando várias vezes a cabeça, imaginava poder, como num passe de mágica, desfazer todo aquele mal que tinha reinado na sua vida, fechar o buraco que tinha sido aberto no chão. Tesouras, facas, giletes, espremedores de frutas, trituradores se tornaram aliados.
- Carol, o jantar vai esfriar minha filha!
...filha, ilha, ilha, ilha...
Pra quê comer? Iria apenas prolongar a triste existência de uma mera mortal.
Voltando aos aliados, a tesoura cortou, a gilete raspou, o espremedor espremeu e o triturador.....AHHHH!!!
Aquela coisa nojenta não fazia mais parte do mundo de Carol, não do rosto dela. No entanto, sob o mármore frio, combinava com o papel de parede do banheiro da suíte.
- Mãe, já estou descendo. Pede à D. Maria para fritar um ovo para mim...
Jornalismo literário - Café com aroma de arte
Na estante de vidro discreta que fica próximo ao balcão de doces, livros da literatura nacional: Fernando Pessoa, Clarice Lispector, entre tantos outros, fazem aquele lugar fascinante. O aroma de café exala no ar convidando a quem passa na porta a incluir-se naquele recinto. A casa é sempre cheia. Mesas de vidro com cadeiras de couro sintético brancas encantam os casais de apaixonados que logo se formam e tornam o ambiente romântico. Quem entra no Café & Poesia, localizado no centro de Campina Grande, jamais esquece aquele ambiente de música clássica e convidadativo.
Para deixar o recinto ainda mais aconchegante, pinturas em óleo sobre tela ou arte naif de artistas locais dão vida às paredes levemente amareladas. Ao lado das mesas cristalinas, uma outra estante comporta pequenas peças de arte de mais artistas: louças pintadas com cores fortes a la Almodovar; peças artesanais como micro-cestos de palhas, mas tão bem trabalhados que pensa-se que é coisa de gente rica. A clientela é fiel e sempre traz mais um amigo para conhecer o lugar memorável.
Para acompanhar o cafezinho, que agora é expresso, com chantilly, licor e uma infinidade de novos sabores, o balcão é o cantinho certo: lindas tortas cremosas de morangos, tortas de chocolates e de frango, enormes croissantes, risoles, coxinhas, folhados. É irresistível. No final da tardinha é o melhor horário.
Um lugar modestamente pequeno no aspecto físico. Uma árvore na frente atrapalha o discreto letreiro que informa seu nome. Não tem neon. Nada de chamar atenção. Apenas o desenho de uma chícara de café exalando o cheiro da bebida mais famosa do país.
O atendimento é rápido e gentil. Moças atentas e sorridentes anotam o pedido dos clientes sem faltar nenhum detalhe. Nem mesmo a música é capaz de tirá-las da concentração. Valoriza-se o cliente. Lá, o café tem aroma diferente, de arte. Enquanto se espera o café com pãozinhos de queijo - pratos da casa - dá para conhecer o universo de Fernando Pessoa. Ou contemplar as obras de arte que estão sempre expostas. Ou mesmo apreciar o talento do artistas anônimos que anseiam entrar para o rol dos grandes artistas. O primeiro gole é viciante.
Jornalismo literário - Um dedo de prosa
17 de abril de 2006. Estava feliz. Era mais uma repórter contratada do Jornal da Paraíba. Tinha feito teste de seleção e passei por méritos próprios - o que rendeu alegria para as minhas amigas e ódio, inveja, um dos sete pecado capitais (sem marketing para a novela da Globo) às minhas arquiinimigas. Minhas amigas diziam: "Tu é chique hein? Parabéns! Arrase lá".
Era justamente minha intenção. Soube também que iria trabalhar com um velho amigo dos tempos da faculdade, Esdras Marchezan, figura carismática, inteligente e batalhador. Ele, espertamente, tinha conseguido a vaga de repórter sem fazer teste de seleção, devido ao tempo que trabalha em jornal impresso. Era um menino visionário.
Pois bem, passadas as festividades da minha vitória (ou forca?), acordei cedo, bem cedinho mesmo, para ir assinar o contrato e definir questões como salário, horário, estas pequenas formalidades. Coloquei a melhor roupa, tomei um banho de aceio (aqueles bem demorado), até decorei um texto e ensaiei umas perguntinhas. Só por garantia.
Chego no jornal com um sorriso que não cabe em mim. Não usava aparelho nesta época, então podia abusar de sorrisos. A telefonista me atende. É Sheila, uma loira, alta, corpo curvilíneo e que recebe muitas cantadas. É simpática e tem muita paciência de poder suportar tantos marmajos e tantas ligações durante o dia. Tornara minha amiga depois de uns meses de convivência diária.
- Adriana, pode entrar. É no final do corredor. Bastos Farias está esperando.
Como já conhecia a sala, tinha feito teste, fui direto, dando bom dia aos poucos conhecidos do jornal. Entro na sala. Bastos Farias, editor na época, disse, ao mesmo tempo que limpava sua gaveta empoierada:
- Só um minuto Adriana, te atendo já.
- Tudo bem, disse.
E essa "limpeza" nunca chegava ao fim. Era tanto do papel velho que eu mesmo fiquei torcendo para minha alergia não me contaminar. Livros, currículos, pequenos lembretes, copinhos de café. Tudo era lixo.
- Então, você passou no teste....quer mesmo trabalhar no jornal impresso?? disse, para descontrair.
- Sim, quero. Gostaria de passar por uma redação. Era o meu sonho desde os tempos da faculdade.....
E ele começou a me assombrar com suas histórias de 18 anos de jornalismo.
- Olha Adriana, vou ser bem sincero com você que está entrando agora. Isso aqui não é vida não. Eu tenho 18 anos aqui e já estou saturado. O jornalismo é peso, o salário ainda é baixo, vida pessoal zero......
- Meus Deus!- pensei.... mas, como assim???
Eu me formei mesmo em jornalismo ou o quê? Claro que, na faculdade, talvez tenhamos uma visão romântica de como são as empresas jornalísticas. Ou, mesmo sabendo da escravidão, horas extras não pagas, salário baixo, pouco reconhecimento, mesmo assim, ainda desejamos fazer parte do time, do front. Fiquei a escutar todo aquele discurso, de dissabores, da labuta da profissão, mesmo sabendo que eu estreante, "foca" e sem nenhuma experiência em impresso.
- Olhe, aqui você fez teste e sabe como é a rotina. Impresso ocupa muito o tempo, há viagens para fazer. E se o repórter viajou num final de semana, isto não significa que não vai viajar no próximo. E o repórter tem de ir, argumentou.
Franzi a testa. Por um momento, fiquei achando que tinha escolhido a profissão errada, que ia adquirir uma gastrite logo na primeirsa semana, ia me viciar no cafezinho, perder cabelos, contrair uma LER, coisa do tipo.
Minha visão romântica tinha ido por água abaixo. Mas a forma como ele ia me alertando sobre o jornalismo impresso, sem ser rude, mas totalemente cru, na lata, sem rodeios. Isso ia me desilundindo.......
Bem vindo a realidade, Adriana, era o que ele queria me dizer.
As horas se passavam, era meio que uma tortura psicológica, estilo a triologia dos Jogos Mortais. Queria sumir, ir direto para o meu computador, ligar, sair para fazer rerportagens e satisfazer meu sonho pessoal.
- Você tem filhos?
- Não, respondi timidamente.
Era como se ele quisesse me dizer que este outro projeto pessoal estaria fadado ao fracasso, que iria demorar para ser mãe, que era melhor, de fato, ser solteira. Para viajar.
- Como eu lhe disse, vamos fazer viagens para o interior do estado.
Ele não queria que eu engravidasse. Era isso. Afinal, era novata e novatos todos sabem o que acontece..escravidão na certa.
Bastos era uma homem alto, forte, calvanhaque meio estilo-precisa-ser-feito. Chegava sempre com muitos jornais e papéis na redação - motivo pelo qual, vez ou outra, limpara a gaveta. Tinha 18 anos de empresa. Não ouvi, naquele dia, uma notícia boa, mesmo que tivesse sido furo de reportagem. Nem o salário havia me tirado a tensão de fazer jornalismo impresso.
Passei o restante do dia tensa. Meu Deus!! o que seria aquilo??
Não estou gostando desta prosa. Eu estava imersa na realidade do jornalismo brasileiro. Era a minha opção. Mesmo com esta recepção nada calorosa do chefe, já entrara na redação meio estressada, característica de jornalista de redação. O tempo passou. Nunca me esqueci deste dia. Até hoje me lembro deste momento grotesco. Depois de quase um ano de jornalismo impresso, matérias repetidas, estresse, salário baixo e outras cositas más, quando alguém me pergunta se desejo voltar à redação de jornal, respondo com uma frase dele: aquilo ali não é vida nãooooooooooooooooooooo!!!
Jornalismo literário - Cabra marcado para morrer
Em frente da casa nº 11 - uma residência bem modesta, com fachada branca já desbotada e com recortes de limo, cujo muro rebocado, sem cor e baixo sustenta um pequeno portão preto - quatro homens encapuzados descem de um Ford Ecosport, prata, de placa JHS-9300, e descarregam desenfreadamente os cartuchos de suas pistolas semi-automáticas PT-040, que, no Brasil, são de uso exclusivo das polícias civil e militar.
Atiram. Ferem. Derrubam e, depois, tal qual uma mala velha, seguram e arremessam o corpo de Antônio Conceição dos Reis para o bagageiro do carro que logo sai em alucinante fuga.
O cheiro de borracha queimada tomou conta do ar. Pedaços do cérebro de um homem tomaram conta de uma parte do asfalto que corta a rua. Os vizinhos não falam, não reagem, não comentam o acontecido para o showrnalismo. Dos moradores, tomou conta o medo.
Antônio, presidente da ONG Nativos de Itapuã, era homem um negro, alto, sério, magro, há 18 anos servia a causa ambiental sem cessar. Ao longo dos seus 44 anos, já estava acostumado a ser ameaçado, seja por carta, por telefone... Mas isso não o impedia de denunciar, de ser desaforado e implacável com aqueles que se dispunham a agredir o meio ambiente, o qual ele estava centrado em defender.
Por coincidência, bizarrice ou ironia imprópria do destino, um corpo, que a polícia acredita ser do ambientalista alado, foi encontrado numa reserva ambiental de Camaçari, no distrito de Vila de Abrantes, 16 km de Salvador.
Policiais, comerciantes, barraqueiros. Eram tantos os que queriam calar sua voz. A 12ª Circuncisão Policial, na Avenida Otavio Mangabeira, em Itapuã, possui uma série de processos onde Antônio é autor. Um deles é contra um grupo de policiais civis que invadiram sua casa, no último seis de fevereiro.
Sua esposa, Eliane Sampaio Reis e sua filha, deficiente física, com apenas 16 anos de idade, jamais o verão de novo, pelo menos nessa vida.
Em outro canto da cidade, a ação começa a render seus tristes resultados. Raquel Pinheiro, uma jovem de 28 anos, cabelos lisos, avermelhados, de rosto simples, sonhador e firme, chega a seu trabalho. Na sala 212, do prédio vermelho no Centro Administrativo da Bahia, ela inicia suas funções como assistente de jornalismo, na Ouvidoria Geral do Estado.
Ao iniciar as leituras dos jornais diários, ela reconhece na foto de capa o rosto de Antonio. Fica nervosa com a circunstância. Sofre com a injustiça e chora por conta da impunidade que está por vir.
Com um olhar infinito, pensa em quantos casos desses já ouvira e de quantos mais haveria de escutar, sofrer e aceitar, apenas, aceitar.
Lembrou-se do ano de 2005, quando ingressava na Ouvidoria como atendente, na central telefônica. Ela foi responsável pela manifestação número 18111, feita através de uma carta, recebida em 18/02/2005. O homem da foto escreveu:
"O Grupo Nativo vem por meio desta reiterar as solicitações para implantar uma polícia especial ou colocar policias nos dois módulos do mesmo vem ficar com dois homens e outro o outro está sendo destruído pelo tempo, isto mostra a falta de interesse com a integridade física dos nossos visitantes que aqui chega, trazendo recursos para os cofres públicos.
No dia 15/02/05 os marginais assaltaram três italianos dentro da área que era para ser segura, próximo aos quiosques, isto é vergonhoso, as autoridades de segurança alega que os visitantes vão para as dunas, por isso são roubados, e dentro do centro comercial é o que?
Jornalismo Literário – Mais uma voz foi calada na luta pela preservação ambiental
Havia acabado de realizar uma de suas tarefas mais corriqueiras e prazerosas. Deixara sua filha de 16 anos, paraplégica, na escola, e voltava para sua humilde casa, localizada em Itapuã. Era uma segunda-feira, 9 de julho, mais ou menos 7h da manhã. Não pôde terminar o trajeto. Seu destino mudaria quando quatro homens encapuzados saltaram de um carro prata e dispararam contra ele, Antonio Conceição Reis, 44 anos, ambientalista durante quase metade desse tempo.
A garagem da casa de número 14, na Rua Guararapes, a poucos metros da casa de Antonio, foi o cenário do crime que aterrorizou a população do bairro. Logo depois de ter seu corpo atingido por cápsulas de pistolas calibres 380 e 40, de uso exclusivo de policiais civis e militares, encontradas no local do crime, Antonio, que era presidente da ONG Nativos de Itapuã, foi jogado no porta-malas do veículo no qual se encontravam os bandidos.
Magro, alto, negro, Antonio era pai devotado de duas filhas, casado com Eliane Sampaio Silva Reis, dois anos mais velha que ele. Lutava pela preservação do meio ambiente e, inevitavelmente, agradava gregos e incomodava troianos. Conseguiu, junto à prefeitura, que o Carnaval e o Reveillon, eventos tradicionais há mais 50 anos, não mais fossem realizados na Lagoa do Abaeté, área de preservação ambiental. Segundo seu cunhado, Everaldo Sampaio, co-presidente do grupo ecológico, Antonio sempre pedia aos turistas que visitavam a região da lagoa para que não fossem às dunas.
No dia 6 de fevereiro deste ano, policiais civis entraram em sua casa, numa operação em busca de traficantes. A cena agressiva da invasão, com objetos pessoais destruídos na presença da sua mulher, Eliane, e de suas duas filhas, ainda adolescentes, não ficaria apenas como lembrança revoltante para Antonio. Ele resolveu, então, entrar com um processo contra os policiais. Não é difícil imaginar que suas ações, como ambientalista e como cidadão consciente de seus direitos, contrariaram muita gente.
Além da luta ambiental, Antonio ministrava palestras para estudantes, realizava caminhadas ecológicas e formava guias ambientais mirins. “Não era envolvido com drogas, era evangélico e trabalhava pela sociedade”. Dessa forma, Ives Quaglia tentava caracterizar o amigo com quem convivia há mais de 30 anos. Trabalhar pela sociedade não era suficiente para livrar Antonio de ameaças, que chegavam à sua casa através de cartas e ligações telefônicas.
No mesmo dia, por volta das 9h, duas horas depois do crime que chocou Itapuã, moradores da região de Sucupira, em Vila de Abrantes, encontraram um corpo carbonizado no porta-malas de um EcoSport prata. O veículo havia sido roubado no dia 31 de maio, no bairro do Garcia. Tinha placa original JQS-9300, mas ostentava uma clonada, de número JPQ-3292.
O estado em que foi encontrado o cadáver dificultou o reconhecimento, mas há indícios que o corpo seja de Antonio. Se for comprovado que o corpo é mesmo do ambientalista, pode-se mesmo dizer que tiros perfuraram o tórax que enfrentava comerciantes, e a cabeça, que pensava em preservar a natureza. As costelas que revestiam seu nobre coração foram fraturadas e uma das mãos, que não negavam ajuda a quem quer que dela necessitasse, ostentava uma chaga.
“Quem poderia ter feito um crime desses contra um ambientalista, que só fazia o bem?”, indaga Raimundo Bujão, amigo de infância de Antonio. Os agentes da 12ª Delegacia, localizada em Itapuã, tentam responder a essa pergunta inconformada. Muita gente pode achar óbvia a ligação entre as cápsulas encontradas, utilizadas exclusivamente por policiais civis e militares, com o processo aberto por Antonio contra os policiais que invadiram violentamente sua casa. A ligação não parece tão estreita assim se for levado em conta que esse tipo de arma chega facilmente, e com freqüência, nas mãos dos bandidos. O trabalho é árduo e longo. Amigos e parentes de Antonio parecem dispostos a esperar, contanto que o caso não seja mais um a atolar as gavetas de inquéritos criminais.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Jornalismo literário - As dietas milagrosas...
Já perdi a conta de quantas dietas e tamanhas loucuras eu já fiz para atingir o peso ideal na balança. E o pior é que eu sempre acabo envolvendo um cúmplice para compartilhar destas loucuras, talvez por achar que duas pessoas é um incentivo a mais para concluir os tais regimes, ou apenas ter alguém para controlar as minhas recaídas e as minhas oscilações de humor. Desta vez, a vítima foi minha mãe. Consegui convencê-la da importância de ter uma reeducação alimentar, apelei para os recentes exames que ela tinha feito, a sua alta taxa de colesterol, e ela acabou cedendo.
Num belo dia, assistindo a um destes programas vespertinos de fofocas e futilidades femininas, vi os depoimentos de algumas celebridades sobre as técnicas que utilizavam para manter seus corpos sarados e esbeltos... dentre as inúmeras opções apresentadas para afinar a silhueta, escolhi a dieta da sopa e comuniquei a minha mãe.
- Poxa mãe, descobri uma dieta revolucionária da sopa, várias artistas já fizeram e perderam 5kg em uma semana, mas tem que seguir direitinho, só pode tomar sopa durante sete dias!
- Podemos começar na famosa segunda, sugeriu minha mãe.
Então, passado o fim de semana, os exageros e as compulsões alimentares, na segunda-feira, como havíamos definido, começamos a bendita dieta da sopa. Naquele dia resolvi acordar mais tarde para não ter que me deparar com aquela triste realidade, só sopa, quem agüenta? Pois é, mas o sacrifício maior foi para minha mãe, que não estava acostumada a mudar suas rotinas alimentares. Ela não conseguiu manter a dieta nem por um dia. No final da tarde, a fome atacou seu psicológico e ela acabou devorando vários alimentos e me desestimulando mais uma vez... Mesmo assim, eu consegui prosseguir a dieta da sopa por mais três dias insuportáveis, mas não foi o suficiente, acabei desistindo antes de completar a semana e, como sempre, não atingi a meta dos 5kg.
Decidi mudar de parceiro, pois com minha mãe os regimes nunca chegariam a um resultado eficaz. Que tal uma amiga, que também esteja acima do peso e que tivesse força de vontade o suficiente para compartilhar meus anseios e se submeter as minhas dietas esdrúxulas? Neste momento, lembrei de Dany, uma amiga da faculdade, que idolatrava os doces, as guloseimas e tudo mais que pudesse engordar só de olhar e, claro, era tão louca quanto eu. Nesta época, eu e Dany precisávamos perder em média 5kg cada uma. Como eu sou mais baixinha, o peso sobressaia bem mais, porém, em Dany, as gordurinhas não eram visíveis, era apenas “síndrome da mulher gorda”, ou seja, nunca está satisfeita com o corpo e sempre acha que precisa emagrecer.
Nós ainda estávamos cursando a graduação de jornalismo, então seria mais fácil combinar os detalhes do regime, já que nos víamos todos os dias, uma iria disciplinar a outra e dividir as crises de mau humor que, inevitavelmente, surgiriam e que, infelizmente, descontávamos em terceiros...
Primeiro dia de mais um regime, sem nome, este, eu e Dany que criamos e, sinceramente, acreditávamos que pudesse dar certo. Nós inventamos uma nova técnica para perder calorias, não perder o apetite e o prazer de saborear os alimentos. Podíamos comer de tudo, ou quase tudo, porém, em pequenas quantidades, ou, como queríamos um resultado em curto prazo, decidimos não comer quase nada.
No café-da-manhã comíamos dois biscoitos cream craker, com uma xícara de café, pois café não engorda; o almoço era a base de verduras e um grelhado, só carne branca e à noite algum líquido, suco, leite, mas sem açúcar, acompanhado de mais dois biscoitos. Após as 18h só poderia beber água. Confesso que foi uma dieta meio drástica, mas no auge da loucura, e o prazer de se sentir mais leve, compensava. No entanto, esta leveza era resultado da fraqueza e da falta de nutrientes que o corpo precisava. Começamos a sentir muito sono, tonturas, mas achávamos que era normal, já que tínhamos diminuído consideravelmente a ingestão de alimentos.
No segundo dia, a balança já registrava 1kg a menos! Ufa... o sacrifício estava valendo a pena. Neste dia fomos ao shopping, depois das aulas na faculdade, para comprar alguns alimentos que faltavam para o regime, como umas barrinhas de cereais, adoçante, enfim, tudo light! Mas a sensação de fraqueza e mal estar já estava visível em nossas fisionomias. Eu não sentia vontade de fazer mais nada, não tinha força. Comecei a ficar preocupada, mas não comentei nada com Dany, pois não queria assustá-la e nem desanimá-la. Porém, ela também estava com os mesmos sintomas e apreensões e também resolveu não comentar nada comigo.
Após comprar todos os ingredientes, pesar mais uma vez na balança para comprovar a diminuição do peso, decidimos retornar para casa, pois estava tão fraca, que nem o prazer de olhar as vitrines superava aquele mal estar.
Paf... puf... pápápápápápápápápápápápápápáp... alguém gritou:
- Acode! A menina caiu das escadas!
Quando eu olhei para o lado, confirmei minhas suspeitas, Dany tinha caído e rolado escada abaixo! Foi tão rápido e um círculo de pessoas formaram-se a sua volta, tentando ajudar a levantá-la. Eu não sabia o que fazer. Só queria verificar se ela estava bem, respirando, lúcida e, graças a Deus estava, tirando alguns arranhões e uma enorme dor de cabeça. Nossa, que susto! Aquele dia, precisei ligar para o pai dela para ir buscá-la e ele, claro, ficou muito nervoso e preocupado. Resolvi esperar o pai de Dany chegar e só assim ir embora. No caminho de volta para minha casa fiquei pensando e refletindo o que as nossas ações imprudentes resultaram e que por pouco minha amiga não teve um acidente mais grave e com conseqüências irreversíveis.
Nossos pais proibiram o tal regime, até eu fiquei receosa de levar adiante, percebi o que as pessoas são capazes de fazer para esculpir seu corpo, baseado em padrões de belezas impostos pela mídia, que cultuam aquelas modelos magricelas, as atrizes famosas que aparecem em novelas, filmes e revistas de fofocas, enfim, desencanei... aquele regime foi o maior absurdo que já fiz na minha vida. Acho que depois desta, eu e Dany aprendemos a lição. Não somos nutricionistas ou profissionais capacitados de saúde para estabelecer uma dieta alimentar. Então, decidimos seguir uma dieta fundamentada, com argumentos embasados e balanceada por verdadeiros profissionais.
O cardápio já estava todo preparado, claro que resolvemos incrementar, por nossa conta e risco, mas, desta vez, pesquisamos algumas revistas, sites, e decidimos recomeçar sem exageros. Liguei para ela comunicando.
- Amiga, vamos fazer agora a dieta dos pontos! Contamos todas as calorias dos alimentos e não ultrapassamos a 1.2000 calorias. Desta forma, nossos pais não vão poder interferir já que vamos comer tudo, balanceado, ao invés de fazer somente três refeições diárias.
Quem achou que eu iria desistir totalmente dos meus objetivos, se enganou. As dietas milagrosas às vezes trazem alguns resultados, outras não, mas a palavra dieta já está intrínseca no vocabulário feminino. E no meu contexto, sempre tem espaço para mais uma... Alguém conhece algum regime inovador? Rsrsrrsrsrsrsrrsrrs
Jornalismo literário - A Fonte Nova é nossa!
Cada um a descreve do seu jeito. Meu tio, por exemplo, torcedor do Vitória, o chama de maior estacionamento do mundo, pois lá cabem 80 mil bestas. O fato é que a Fonte Nova, que pertence ao Estado da Bahia e ocupa o 6° lugar entre os maiores estádios do Brasil, é o local de encontro entre os torcedores do Esporte Clube Bahia. Ao entrar no estádio, quem torce pelo tricolor confessa: "O coração bate mais forte, desde a entrada, que pode ser pelo lado do Dique do Tororó, ou por Nazaré, a festa é abundante." Torcedores se aglomeram em busca de mais um gole de cerveja, que parece funcionar como um combustível para gritaria, seja para impulsionar seu time, ou para xingar a senhora mãe do árbitro da partida. Confesso, eu faço os dois.
Particularmente, prefiro entrar pelo lado do Dique, pois venho andando por ali, afim de pedir ajudar aos orixás que lá ficam fixados. Quando chego na metade do caminho, logo aparecem os cambistas, a parte ruim da diversão, nos oferecendo um ingresso com preços absurdos. Claro que não compro, prefiro ajudar ao Bahia comprando direto na bilheteria, mesmo que esteja lotada, pois é o calor humano, aliado a uma cerveja gelada que te coloca dentro do jogo. Olho pra cima e penso: "Puxa! Como é grande a casa do meu time".
Na entrada existem vários corredores de ferro vermelho a uma altura de mais ou menos 120 cm, na tentativa fajuta de evitar a aglomeração. É lá que ocorre um empurra-empurra sadio, geralmente com o coro de "Bahia, o Bahia é minha vida! O Bahia é meu orgulho, o Bahia é meu amor ôôô!!!!". É nessa parte que os cabelos do seu corpo se arrepiam, seus olhos ameaçam chorar, seu subconsciente faz com que você vire todo o conteúdo da cerveja, mesmo sem querer você começa a cantar, até chegar na catraca, onde ficam os porteiros com coletes amarelos, fiscalizados por supervisores e policiais, para evitar algum tipo de suborno, ou permissão da entrada de amigos.
Entrei e, após dar 48 passos, começo a avistar o gramado do espetáculo, verdinho, parece até novo, vou subindo as escadas das arquibancadas enumeradas, não sei nem porque, já que ninguém respeita, aliás nem no ingresso vem a numeração. Na tentativa de achar um bom local para sentar, vou caminhado pelos dois anéis do estádio, dou preferência à sombra. Quando me sento, começo a analisar os quatro cantos do estádio, admirando sua beleza um pouco "suja" - sim, porque há um bom tempo a Fonte precisa de um bom banho.
Olho para o campo que mede 115m de comprimento por 92m de largura, dividido em dois campos marcado por uma linha de cal, onde os times travam suas batalhas. A área do escanteio é marcada por quatro bandeirinhas quadriculadas em amarelo e vermelho, que ficam de cada lado. As traves brancas, como manda o figurino. Se quiser ir ao banheiro, é melhor se segurar, se não der para aguentar se dirija ao muro mais próximo e reservado, pois os banheiros são imundos. Mesmo com vários problemas, basta o time do Bahia entrar em campo, seja até mesmo pelo campeonato da terceira divisão, que tudo é esquecido.
Começa a festa e o objetivo é um só, a vitória para que no final da partida o placar que fica atrás do gol do lado do Dique, lá no alto do muro, possa nos fazer mais uma vez felizes.
Jornalismo literário - Toda causa tem um preço
O último dia na vida do ambientalista e presidente do Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, Antônio Conceição Reis, 44 anos, já anunciara um prenúncio. Acordou cedo, como de costume, tomou café e, acompanhado da filha, foi deixá-la na escola. Esta seria a última vez que a filha estaria com o pai. Quando retornara, às 7h30 da manhã, na rua Guararapes, nº 14, no bairro de Itapuã, uma supresa lhe aguardava: quatro homens estranhos lhe abordaram, atiraram contra o ambientalista e, sem dar chance da vítima esboçar uma reação, o colocaram no porta malas de um carro Ford Ecosport e saíram pelas ruas de Salvador. Para que seus rostos não fossem vistos, os algozes, espertamente, trataram logo de esconder e colocaram uns capuzes, um truque bastante comum.
E a movimentação começou a borbulhar no bairro de Itapuã. Os moradores, principalmente os mais chegados, queriam saber como foi, quando, o quê, quem e onde, como se fossem repórteres atrás da notícia. Mais do que isso. Estão consternados pela morte do ambientalista. Dúvidas, questionamentos, suposições e medo. Depois do crime, impera a lei do silêncio. Ninguém atende a imprensa já presente no local do crime. Radialistas, repórteres, fotógrafos, todos querem coletar informações, entrevistar testemunhas, moradores, familiares. Querem a melhor reportagem e se esforçam para isso: perguntam perguntam e perguntam.
Diante de tanto silêncio, o cunhado e vice-presidente do Grupo a qual o ambientalista era presidente, revela:
- O Antônio tinha uma coleção de inimigos, desafetos. Como ele era defensor da Lagoa do Abaeté, ele constantemente pedia aos turistas para não irem às dunas. Os comerciantes da localidade não gostavam muito das ações e idéias que Antônio defendia e apregoava.
Recentemente, o ambientalista andava recebendo uns telefonemas meio estranhos, como vozes difíceis de identificar. Ligavam para ele a qualquer hora. Cartas em tom ameaçador também chegavam à sua residência e este fator foi se intensificando nos últimos dias.
- O que sei dizer, é que sua morte fez a alegria de muita gente que não gostava dele. Apenas isso eu sei. Nada mais - disse a viúva do ambientalista Eliene Sampaio Reis, ainda consternada, em depoimento na Delegacia.
A polícia ainda não sabe a autoria do assassinato. Um carro cabornizado foi encontrado hoje (9/7) com um corpo dentro. A polícia tem fortes suspeitas de que seja o corpo do ambientalista. O que muita gente sabe é que Antônio já vinha sofrendo ameaças por telefone, bilhetes há cerca de uma mês, quando sua casa fora invadida por policias civis, em 6 de fevereiro. Depois deste episódio, Antônio resolveu entrar com um processo contra os policias. Ele queria justiça, ansiava por ela. Disseram que ele ia desistir do inquérito policial. Talvez porque estivesse desacreditado dela. Ou, por receio de retaliações. Não se sabe.
Mas, ao que tudo parece, os ambientalistas, no Brasil, muitas vezes, pagam com a própria vida a paixão pela defesa do meio ambiente. Há quem relembre o caso da morte da missionária Dorothy Stang, de 73 anos, conhecida como irmã Dorote, que foi morta com sete tiros a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará. Dócil, cabelos curtos e sinalizando a experiência de vida, a Irmã Dorote era uma figura carismática na região. A sua morte provocou muita indignação e revolta nos moradores de Anapu que, ainda hoje, louvam pela missionária.
Além das causas ambientais, o caso da missionária levanta uma coincidência: ela foi assassinada à 7h30 da manhã, mesmo horário que o ocorreu o fato com Antônio. O final triste na história de ambientalistas ainda suscita indagações e deixa a polícia e familiares atônitos.
Assustados, os moradores de Itapuã não conseguiam entender as causas reais do crime e se dizem chocados com a violência. E clamam por mais segurança. Antônio Conceição dedicou 18 anos de sua vida na defesa das causas naturais e se orgulhava disso. Magrinho, calmo, falava pausadamente e, no caos da vida urbana, parecia desconhecer a palavra estresse. Polêmico, o ambientalista provou do amargo sabor de defender as causas ambientais.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Jornalismo literário - Uma Solineuza para um Caco Antibes
"Piririn piririn piririn alguém ligou pra mim quem é?" Ou um outro ringtone em ritmo de funk: "toca telefone, toca toca telefone, o telefone tá tocando e você não tá escutando". Bom, não vou falar sobre funk nem os sem número de "crazytones", como são chamados os toques de celular em mp3 que falam, gritam, latem, relixam e tantas outras infinidades. Não vou falar mal de quem os têm em seus celulares porque eu mesmo também tenho um "crazytone". O idéia é apenas para puxar o assunto sobre celular e não cair no velho clichê de que milhares de brasileiros utilizam o sistema de telefonia móvel.
Arthur estava passeando pelo shopping, em um daqueles típicos fins de semana em que seus amigos estão "morgados" e não estão afim de tomar umas em um barzinho. Ele resolve, não somente comer um daqueles lanches hipercalóricos da MC Donnald´s como é de costume nesses fins de semana entediantes e pegar uma sessão de cinema, comprar uma capa para o celular de sua namorada. Arthur, moreno estilo surfista, bermudão, camiseta e um tênis no pé, entra de loja em loja, seu interesse é aquelas capinhas de celular "de meia". Sua namorada Ariele, morena dos olhos verdes, e nem um pouco patricinha para não dizer o contrário, queria muito uma capa lilás, sua cor predileta. Ela já tinha uma infinidade, quase uma para cada ocasião. E vai Arthur bater perna atrás da tal capa lilás.
- Moça, por favor, tem daquelas capinhas de meia para celular?
- É para você?
- Não né? Para minha namorada!
- Ah! - a vendedora sem graça mostra alguns modelos - temos esses aqui.
- Hum.. ok! obrigado
Entra em loja, sai de loja, entra em mais uma loja e sai de outra e mais outra, nenhuma capa o agradava, mas faltavam ainda duas lojas. O rapaz já cansado e mal-humorado, típico da personalidade de Arthur por tudo se irritar, àquela altura já odiava sua namorada que o fizera perder aquele tempo todo atrás de uma capa lilás. "Não podia ser rosa, preta, vermelha, laranja, furta-cor? Tinha que ser lilás? Somente lilás? P****!". Entra na loja já de cara fechada, mas simula um sorriso singelo e falso para não assustar a vendedora e dirige-se ao bancão. Lá estava a vendedora e mais dois clientes e ele esperou pacientemente pela sua vez de ser atendido.
- Posso ajudar?, disse a vendedora gorducha atrás do balcão
- Eu gostaria de ver capa para celular...
- Temos esses modelos, interropeu a gordinha que o "pretinho básico" não a emagrecia em nada. Pelo contrário, a qualquer momento ela poderia explodir.
- Não! Não! Eu queria ver aquelas capas de meia.
- Ah! sim! Estão aqui. E para você, não quer olhar nada?
- Não obrigado!
Eis que o outro cliente que ela ainda atendia resolveu se intrometer na conversa.
- Olha essa capa que legal!
- Não gosto de capa em celular! - respondeu Arthur curto e grosso.
- Mas ela protege o celular e você pendura na calça assim oh!
- Tá! - Arthur já estava impaciente - mas eu não (com bastante ênfase) gosto de capa em celular - e continuou olhar as capas de meia
- Mas olha essa que bacana, você vai gostar, ela gira oh!
Arthur não respondeu nada. Se Caco Antibes (antigo personagem de Miguel Falabela em Sai de Baixo) tivesse ali naquela hora com certeza esculhambaria o humilde cliente e concluia com o famoso "odeio pobre" ou "pobre adora achar que está arrasando, que está na moda, mas continua brega e pobre". Arthur, a ponto de explodir, mas se controlando, agradece a atenção da vendedora e sai da loja resmungando consigo: "capa na cintura é brega! É coisa de pobre! Até parece que eu vou usar isso, oh povo mó pilheiro, mó jojolão, paraíba".
E vai para a última loja, em sua última investida, a procura da capa de meia lilás para sua namorada. E mais uma vez a boa e velha pergunta:
- Tem capa de meia para celular?
Jornalismo literário - Passar uma tarde em Itapuã...
Itapuã, um bairro de cultura, tradição e tranqüilidade não está sendo mais o mesmo. Um dos bairros mais populosos da capital baiana, que se tornou cartão postal da Bahia e famoso pelas suas belezas naturais, com as dunas do Abaeté, praias, pescarias e pelas canções de Dorival Caymmi, está esquecidos por causa do elevado índice de violência.
Moradores apaixonados pelo bairro perdem cada vez mais o encanto pelo local. Eles percebem que a violência está evoluindo a cada dia e, assim, vão perdendo o seu jeito Itapuanzeiro de ser. Não visitam a Lagoa do Abaeté, não sentam mais nas calçadas e nem nas praias para admirar a beleza do mar. Com medo e tensão de serem mais uma das vítimas de violência no bairro.
O crime mais recente foi o caso do ambientalista Antônio Conceição Reis, 44 anos, morto a tiros na porta de sua casa. Antônio tinha deixado sua filha de 16 anos na escola e quando retornava para sua casa, na Rua Guararapes, foi abordado por quatro homens encapuzados, por volta das 7 da manhã, da segunda-feira dia 9 de julho. Armados de pistolas, os bandidos desceram do veículo e atiraram no ambientalista, que caiu em frente a uma garagem de portão branco e recebeu vários tiros pelo corpo. Os criminosos jogaram a vítima no porta-malas do carro e fugiram.
Os rastros de sangue nas casas vizinhas, além de parte da massa encefálica e dentes espalhados pela humilde rua onde morava Antônio, entristeceram seus familiares, amigos e vizinhos. O crime comoveu todos os moradores do bairro. Mas, o que Antônio fazia de errado? Um homem que só estava querendo proteger a natureza!
Há cerca de 20 anos, ele estava envolvido com questões ambientais. Mantinha a ONG Nativos de Itapuã e, como coordenador do projeto social Meninos do Abaeté, com adolescentes atuando como guias mirins no bairro, pretendia fundar em Jaguaribe o primeiro Parque de Manguezal. E agora, para os vizinhos, fica na memória a última imagem de Antônio, um homem alto, magro e negro, caído ao chão perto da sua pequena casa branca, de portão preto. Mais uma das vítimas dos crimes de violência que ocorrem no bairro de Itapuã.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Jornalismo literário - Nada justifica
Quarenta tiros de pistolas calibres 380 e 9 mm efetuados pelas mãos de quatro bandidos e um único alvo: o ambientalista Antônio Conceição Reis, 44 anos. O militante, conhecido por sua luta em defesa da Lagoa do Abaeté, retornava para casa, no bairro de Itapuã, por volta das 7 horas do dia 9 de julho, quando foi abordado pelos bandidos que usavam máscaras negras. Em questão de segundos, a morte se aproximava. Antônio jamais pensara estar num porta-malas de um veículo de cor prata, que saiu queimando pneu e impedindo que testemunhas identificassem a placa. Quem ainda estava dormindo levantou da cama com o susto.
Horas após a barbaridade, a polícia encontrou um corpo carbonizado no Ford Ecosport, de placa JQS-9300, em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, que, possivelmente, seja do ambientalista. Do crime restaram apenas os testemunhos de vizinhos apavorados e o sangue jorrado de um ser humano na calçada de uma casa próxima a sua. Eles informaram aos agentes da 12ª Delegacia (Itapuã) que Antônio havia deixado a filha paraplégica, de 16 anos, na escola e caminhava normalmente, sem desconfiar de nada.
Os homens desceram do carro rapidamente e já atirando no ambientalista, que não teve tempo de se proteger. Antônio, de estatura alta, pele negra, caiu ao chão e recebeu mais tiros, que soavam aos ouvidos de quem acabara de levantar, naquela hora da manhã, quando o sol dava os primeiros sinais de que iria brilhar em pleno inverno.
Antônio, que era presidente do Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, não imaginava que ontem poderia ser o último dia da sua vida. No entanto, vinha sofrendo ameaças de morte desde o dia que começou a receber ligações anônimas e bilhetes deixados na porta de sua casa – uma pequena residência na Rua Guararapes, de portas e janelas na cor terra – supostamente por conta da conquista junto à prefeitura de acabar com as festas de Carnaval e Reveillon no Parque do Abaeté, contrariando a maioria dos comerciantes da região que passaram a ser seus grandes inimigos. "É difícil dizer que há um suspeito. O que a gente sabe é que o nosso trabalho sempre incomodou muita gente", afirmou um dos familiares da vítima.
Muito assustada e sem acreditar no que havia acontecido, a comerciante Eliane Sampaio Silva Reis, mulher de Antônio, se mantinha de pé graças aos calmantes ingeridos. Ela acredita que tudo não passa de um crime planejado. Sua residência, naquele bairro boêmio e de inspiração para as canções de Dorival Caymmi, foi invadida por policiais do COE em janeiro, deste ano, durante uma operação da Polícia Civil de combate ao tráfico de drogas na Baixa do Soronha.
Da ação policial em sua casa, que por alguns minutos quebrou a tranqüilidade do bairro, restou o sofrimento em ver tudo revirado e destruído, e a queixa registrada na própria polícia daquele inesperado dia. "Hoje (9/7) era o dia marcado para Antônio reconhecer os policiais que invadiram nossa casa, mas já tinha dito que não teria coragem para evitar mais problemas", lembrou Elaine, às lágrimas.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Tuesday, July 10, 2007
Jornalismo literário - Como um animal qualquer
Numa linda manhã de sol, o sangue de um ser humano jorrou pela calçada em frente a uma casa humilde com portas de cor vermelha desbotada. Foi ali o final da trajetória de vida do ambientalista Antonio Conceição Reis, 44 anos, mais conhecido como Antonio Come Lenha, que, após ter deixado sua filha na escola, foi abordado e morto a tiros, por quatro homens encapuzados, na porta da sua residência, localizada na Rua Guararapes, no bairro de Itapuã. Um final de vida trágico para um homem de personalidade forte, que há 20 anos lutava pela preservação da natureza, principalmente no bairro de Itapuã, onde morava, atuando com adolescentes mirins.
Antonio, nessa trajetória de luta incansável pela natureza, há um ano vinha recebendo ameaças de morte através de telefonemas e bilhetes deixados na porta da sua casa. Mesmo com as ameaças, o ativista não deixou que apagassem a sua esperança e dedicação.
Testemunhas que estavam no local afirmaram que os criminosos desceram de um veículo de cor prata, ainda não identificado, e dispararam vários tiros na vítima, a maioria na cabeça. Em seguida, eles o colocaram no porta-malas do carro e fugiram. “Tava indo pra escola, quando olhei em minha direção quatro homens encapuzados atirando nele, parecia coisa de cinema”, relatou o estudante E.S, de 14 anos.
Coisa de cinema é a história desse defensor que lutava com unhas e dentes pela preservação do parque do Abaeté, onde conseguiu acabar com o carnaval, de tradição de 50 anos, deixando os comerciantes enfurecidos e com sede de vingança.
Toda a dedicação pelo meio ambiente acabou dentro de um porta mala de um carro. Como se fosse um animal qualquer.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Jornalismo literáro - Por que tanta violência?
Passar a tarde em Itapoã, olhar o sol em Itapoã, já não é uma boa forma de relaxamento, pelo contrário, é motivo de preocupação. O local tornou-se bastante violento. No dia 9 de julho, o ambientalista Antônio Conceição Reis, 44 anos, alto, moreno e de boa comunicação, foi morto por 14 tiros de pistolas de uso exclusivo da Polícia Militar.
Ele vinha sofrendo ameaças de morte através de comunicados deixados em frente a porta de sua casa e pelo telefone. Seu assassinato seguido de seqüestro do corpo aconteceu na rua Guararapes, próximo a sua residência, após deixar sua filha paraplégica de 16 anos na escola.
Eram 7 da manhã quando apareceram quatro homens encapuzados atirando sem dó e piedade. Policiais que investigam o caso encontraram, no local do crime, massa cefálica e dentes da vitima. Pelas marcas de sangue no chão, os criminosos não deram chances de reação e sua intenção era realmente de matar, segundo moradores do local que não quiseram se identificar, por medo de represálias.
A frente do caso está a delegada Francineide Moura, da 12ª Delegacia, localizada no bairro de Itapoã. “Temos testemunhas que vão poder dar maiores detalhes do crime, elas vão ser ouvidas a partir de hoje”, afirma a delegada, com um olhar sisudo. Ela informou também que foi localizado um corpo carbonizado dentro de um porta mala de um Ecosport, cor prata, placa JQS9300.
O ativista Antonio Conceição Reis era presidente do Grupo Ecológico Nativos de Itapoã e lutava, através de sua ONG, pela preservação do parque do Abaeté. Ele também desenvolvia o projeto Meninos do Abaeté, para formar rapazes do bairro como guias mirins junto aos turistas.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Vingança?...........O POST SOFRERÁ ALTERAÇÕES
A "Baixa"
Moradores temem visitar ou sequer comentar sobre o local. Tomado pelo tráfico de drogas e roubo, a Baixa da Soronha é uma das áreas mais violentas de Itapoan. Às vésperas da famosa Lavagem de Itapoan (2006), caracterizada pela forte presença de religiosidade, mistura de crenças - adeptos ao candomblé e catolicismo - foram apreendidos cerca de 35 quilos de maconha, 4,5 quilos de crack e 3,6 quilos de cocaína, além de balança de precisão, pistolas, revólveres, munição, celulares, toca-fitas, R$ 24 mil, US$ 10 mil e outras cédulas de moedas estrangeiras, segundo informações da Secretaria de Serviços Públicos.
Em janeiro deste ano, um dos integrante da quadrilha de Leno, o Mantena, foi preso vendendo drogas em local público.
Jornalismo Literário - Morte na luta pela preservação da vida
Josi Anjos
O bairro de Itapuã já não é mais o mesmo de outrora. Anunciaram as notícias dos jornais dos últimos dias. A insegurança tem rondado o bairro da capital baiana, de onde exala um forte cheiro de morte mesclado com a maresia da encantadora praia. Ao que parece, já não é mais tão atrativo passar uma tarde em Itapuã...
A onda de insegurança apavora não apenas quem não sabe nadar, mas a todos os moradores do bairro. No entanto, um deles, em especial, colecionava motivos para temer. Defensor da vida, o ambientalista Antonio Conceição Reis vinha sendo ameaçado e já estava condenado à morte, amplamente anunciada por cartas e telefonemas há cerca de um ano.
A promessa não tardou muito a ser cumprida. Na manhã de 9 de julho, a história de Antonio Reis teve um desfecho trágico que marcou e revoltou o bairro. Coincidentemente, o assassinato ocorreu na segunda-feira em que o ambientalista deveria fazer o reconhecimento de policiais civis que invadiram sua casa, de forma truculenta, em janeiro deste ano, durante uma operação policial na repressão ao tráfico de drogas.
Receoso por sua vida e a da família, Antonio não descartava a possibilidade de desistir de fazer o reconhecimento dos agressores, como havia confessado à esposa. No entanto, ao retornar da escola da filha, por volta das 7h30 da manhã, várias balas atravessaram o seu destino e tiraram-lhe a vida.
O crime ocorreu a cerca de cinco metros da casa em que ele vivia com a família, na rua Guararapes. Ao chegar no local, os agentes do 12º Departamento de Polícia encontraram os sinais da violência: 14 cápsulas de pistola 38 e 40mm, de uso exclusivo da polícia, além de manchas de sangue, dentes e partes da massa encefálica da vítima.
O tititi dos moradores que ecoava através do vento narrava o acontecido. Antonio havia sido abordado, em frente à garagem do vizinho, por quatro homens que escondiam as verdadeiras identidades com o auxílio de meias em forma de capuz, estilo dos carrascos da época medieval. Os criminosos estavam a bordo de um Ecosport prata e, como os carrascos, encenaram o show da morte ali mesmo, em espaço público, ao atirarem contra o ambientalista. Em seguida, eles jogaram o corpo no porta-malas e saíram em disparada, seqüestrando o corpo da vítima e aumentando a angústia e a incerteza dos familiares.
Humilde, Antonio morava em uma casa simples, com muro baixo ainda no reboco, portão de ferro e uma pequena varanda que separava a área externa da, aparentemente, frágil porta e estreita janela marrom goiaba. A fachada da casa branca encardida denunciava que as paredes não sentiam o gosto de tinta há vários anos. Detalhes que reforçam a idéia de que o crime não poderia ter sido motivado por dinheiro, e sim, vingança.
Eliane Sampaio Silva Reis conta que o marido tinha muitos desafetos que não andavam nada satisfeitos com a atuação de Antonio em defesa do meio ambiente e, em especial, da Lagoa do Abaeté, Área de Proteção Ambiental (APA) que ele protegia como a própria vida. A lista de prováveis “inimigos” do ambientalista é recheada por comerciantes e policiais.
Por ironia do destino, ou uma brincadeira sarcástica dos criminosos, o corpo, que suspeitam ser do ambientalista, foi encontrado carbonizado no porta-malas de um carro em uma reserva ambiental, na localidade de Cordoaria, em Camaçari.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.
Jornalismo literário - O Antônio que eu conheci
Yuri Almeida
....e não é perigoso lutar pelo meio ambiente?
- Rapaz, qualquer luta contra os poderosos envolve riscos...
Será que há quatro anos o criador e coordenador do Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, Antônio Conceição Reis, 44, já premeditava o que iria acontecer na manhã do dia 9 de julho?
Não lembro qual a disciplina da faculdade se destinava aquela atividade, apenas fomos à Lagoa do Abaeté realizar um trabalho acadêmico. O foco do trabalho eram as Lavadeiras do Abaeté e seus aspectos folclóricos, mas não encontramos nem lavadeiras, imagine a tradição, as histórias e a cultura que procurávamos.
Diante daquele paraíso natural, lagoas, dunas, mangue e lembranças de outrora (quem nunca desceu embolando naquelas dunas, alvas como as roupas das propagandas de sabão em pó, e caia na lagoa?) avistamos um stand, ou melhor, uma barraca, semelhante aquelas que vendem cachorro-quente no carnaval. Uma lona verde, algumas camisas expostas e o “Meninos do Abaeté” escrito na barraca. Não lembro de nenhum slogan. Era a única coisa, além da água e areia, existentes naquela tarde. Aproximamos-nos, explicamos o motivo de estarmos ali e, como “bons jornalistas”, que naquela época pretendíamos ser, iniciamos uma batalha de perguntas.
- Nome?
- Antônio Conceição Reis, mas sou conhecido como Antônio Conceição.
- O que faz da vida?
- Nós temos o projeto “Nativos de Itapuã”, do qual sou coordenador e criador, que trabalha com a consciência ambiental e preservação das lagoas do Abaeté. Lutamos para manter limpa as águas, evitar os assoreamento e conscientizar a população de como cuidar da natureza - ...e por aí desenrolou-se a conversa...
Antônio Conceição demonstrava grande conhecimento do que falava, e convencia. Em poucos minutos já era um defensor daquele parque. Há 18 anos estava naquela luta, mobilizando a comunidade, elaborando projetos para debater com os poder públicos, em uma palavra: um verdadeiro líder. Vestia a camisa do grupo (só lembro que era verde), sandálias, bermuda, tinha uma fita do Senhor do Bonfim no braço esquerdo. A pele, queimada pelo sol, tornara-a mais escura. A fala era pausada, os argumentos bem definidos e boa memória. Contou-nos sobre a Lagoa, o que precisava ser feito e, é claro, queixou-se do prefeito, dos vereadores, do governador: todos eles não estavam em aí para nada – repetia.
Mas Antônio continuaria ali.
Ah! Lembro agora que ele se queixou de novos empreendimentos de redes hoteleiras. Iriam destruir o ecossistema local, certamente foi o que fundamentou sua preocupação.
Já vasculhei cada milímetro do meu quarto atrás da fita da nossa entrevista... Nada!
Ainda vi Antônio algumas vezes depois do primeiro encontro. Certa vez perguntei como andavam as coisas. Nada havia mudado. Mas fiquei feliz em ver que ele continuava ali, lutando, buscando preservar a maior riqueza (tão desprezada) pela sociedade. Os garotos que integravam a ONG recebiam treinamento para guiar os turistas pelo Parque do Abaeté. Uma alternativa para o mundo do crime, Antônio disse também.
O tempo passou...
Há muito não vou ao Abaeté. A criminalidade tomou conta do local, muita droga, muita briga. Evito. Só não pude evitar ouvir a matéria sobre a possível morte, morte nada, a-s-s-a-s-s-i-n-a-t-o de Antônio. A polícia ainda não comprovou se o cadáver é de fato o ambientalista. Na chamada do telejornal dizia que era um ambientalista de Itapuã.
Pensei
Mando (literalmente) meu irmão e minha filha CALAREM a boca.
Lá vem a matéria. Mostra a Lagoa, de repente surge a imagem de Antônio.
- Vixe... é ele mesmo.
A jornalista conta como aconteceu:
Deixou a filha na escola, voltava para casa, homens encapuzados desceram do carro atirando, quatro tiros na cabeça, de acordo com a reportagem. Como um boi abatido, carregaram-no; o corpo foi jogado no carro (a polícia já descobriu que é roubado), tocaram fogo no carro e no corpo (será dele mesmo? Cadê as provas?) Acharam o carro e o corpo, ironicamente numa reserva ambiental no distrito de Vilas de Abrantes (Camaçari-Bahia). Desconfiam que é ele. Imagens da família no IML (Instituto Médico Legal). Nem diante de uma tragédia abandonam o lead jornalístico...
Será que ninguém enxerga o que representa o fato? Será apenas mais um dado na estatística sobre violência urbana?
Os peritos buscam um meio de identificar o corpo. Não bastaram os tiros? Meteram fogo no ambientalista. Não resta dúvida: foi vingança. Mas de quem? Por que? Quem eram os mandantes? A reportagem questiona, eu questiono. Todo mundo questiona?
Suspeitam da polícia, que invadiu sua casa, pequena, sem reboco, sem pintura recentemente. Antônio prestou queixa. A sua esposa se queixou. Premonição? Medo?
Sabe-se lá...Antônio ouviu a esposa, deixou a filha na escola, tinha audiência marcada na Corregedoria: iria tirar a queixa, depois da queixa da sua companheira.
Pelo horário, iria se arrumar, se dirigir à Corregedoria, mas a morte, fantasiada de vingança, se antecipou. Ou anteciparam?
Apontam as brigas com os comerciantes locais, depois que ele conseguiu impedir que o carnaval fosse realizado na área ambiental, como uma resposta ao prejuízo causado.
Inúmerossssssssssssssssssssssss são os inimigossssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss, ameaças idem, bilhetes, piadinhas, fuxico. Certa vez tentaram incendiar seu stand lá da Lagoa.
Ninguém sabe! Como é que ninguém sabe??????????????????????????????????????
A matéria jornalística bradava:
- Um dos ambientalistas mais famosos de Salvador!!!!!!
Era conhecido na comunidade, fazia parte do cenário da Lagoa do Abaeté. Alguém viu, sim alguém viu. Depois que mataram o cabra, “a polícia” orientou os vizinhos a lavarem a calçada onde Antônio....nesse momento não é somente Antônio Conceição Reis, 44, Grupo Ecológico Nativos de Itapuã, porra!!! É símbolo de uma luta, de um sonho!!! Lavar a calçada para limpar as provas? Limpar a história de Antônio?
A água pode ter limpado a marca do crime, a calçada perdeu a tonalidade vermelho-sangue, voltou a cor que era antes...mas só a cor, só a cor da calçada, palco para a tragédia humana, mas, certamente, quando forem falar da Lagoa, irão falar dele, assim como Dorival Caymmi, mas não haverá poesia, nem doçura, alegria e demais adjetivos melosos.
Só a certeza de que “qualquer luta contra os poderosos envolve riscos”.
Jornalismo literário - Uma morte em debate
André Martins
Não há outro assunto em pauta do que discutir sobre o meio ambiente e sua preservação. No último sábado (7/7), em vários países, o Brasil também estava incluso na lista, aconteceu um show em prol da proteção do nosso planeta. Em meio a pedidos de "proteja nosso ar, matas, águas" e "não polua", o assassinato do ambientalista Antônio Conceição Reis, 44, choca a população de Salvador. Antônio defendia a fauna da região de Itapuã e Abaeté e foi abordado por quatro homens encapuzados.
Antes das 7h da manhã do dia 9, Antônio saiu de casa juntamente com sua filha, deficiente física, para levá-la à escola. Essa foi a última vez em que o defensor do meio ambiente viria um sorriso no rosto de sua filha e a última vez em que receberia o seu abraço afetuoso. Ao retornar para casa, próximo da rua onde morava, ele foi abordado por quatro homens que desceram de um Ford EcoSport - que suspeitas indicam que também tenha sido roubado - encapuzados e armados até os dentes.
Antônio residia na rua Guarapari, no bairro de Itapuã, com sua mulher, a comerciante Eliane Sampaio Silva Reis, 46 anos. O casal morava em uma casa simples, com pintura desgastada pelo tempo. Um pequeno quintal à frente, de muro baixo e portão de ferro, delimitava a residência da rua. Humilde, simples, de bem com a vida e protetor ferrenho do meio ambiente – é de pessoas como ele que precisamos para tentar, não solucionar, mas amenizar a crise ambiental – Antônio lutava há 20 anos em prol do meio ambiente da região de Itapuã e Abaeté, além de ser presidente da ONG Nativos de Itapuã e coordenar o projeto social Meninos do Abaeté, em que os garotos do local eram instruídos a serem guias mirins no bairro.
Os quatro encapuzados começaram a atirar e a descarregar suas pistolas 380 e 40 calibre no rapaz, sem ao menos um motivo explícito. No total foram 14 tiros que acertaram principalmente a cabeça de Antônio, deixando parte da massa encefálica e dentes espalhados no chão da rua. Após o ato violento, os assassinos pegaram o corpo de Antônio e o jogaram dentro do porta-malas do carro, e fugiram em alta velocidade. Mais tarde um carro da mesma marca foi encontrado queimado em um terreno de proteção ambiental em Abrantes, junto com um corpo totalmente carbonizado.
Alguns vizinhos relacionam o crime à policiais ou comerciantes da região. O defensor que não teve como se defender, já vinha recebendo ameaças devido a liminar que o mesmo havia conseguido a respeito da proibição de festas de Carnaval e Reveillon no Abaeté, já que o local era de proteção ambiental. Por isso, os comerciantes locais estavam revoltados. Outro motivo foi uma denúncia que Antônio fez à Defensoria Pública sobre a invasão e ação truculenta, em que seu imóvel foi revirado e destruído, por alguns policias que diziam estar à procura de traficantes.
Antônio morreu violentamente, sem nenhum motivo, apenas por vingança de pessoas que se acharam ameaçadas e coagidas por um cidadão que apenas defendia um bem comum, o meio ambiente. Enquanto seus assassinos ficam impunes, o meio ambiente baiano perde um dos seus maiores expoentes e defensores.
* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV
