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Tuesday, July 10, 2007

Jornalismo Literário - Morte na luta pela preservação da vida

Josi Anjos

O bairro de Itapuã já não é mais o mesmo de outrora. Anunciaram as notícias dos jornais dos últimos dias. A insegurança tem rondado o bairro da capital baiana, de onde exala um forte cheiro de morte mesclado com a maresia da encantadora praia. Ao que parece, já não é mais tão atrativo passar uma tarde em Itapuã...

A onda de insegurança apavora não apenas quem não sabe nadar, mas a todos os moradores do bairro. No entanto, um deles, em especial, colecionava motivos para temer. Defensor da vida, o ambientalista Antonio Conceição Reis vinha sendo ameaçado e já estava condenado à morte, amplamente anunciada por cartas e telefonemas há cerca de um ano.

A promessa não tardou muito a ser cumprida. Na manhã de 9 de julho, a história de Antonio Reis teve um desfecho trágico que marcou e revoltou o bairro. Coincidentemente, o assassinato ocorreu na segunda-feira em que o ambientalista deveria fazer o reconhecimento de policiais civis que invadiram sua casa, de forma truculenta, em janeiro deste ano, durante uma operação policial na repressão ao tráfico de drogas.

Receoso por sua vida e a da família, Antonio não descartava a possibilidade de desistir de fazer o reconhecimento dos agressores, como havia confessado à esposa. No entanto, ao retornar da escola da filha, por volta das 7h30 da manhã, várias balas atravessaram o seu destino e tiraram-lhe a vida.

O crime ocorreu a cerca de cinco metros da casa em que ele vivia com a família, na rua Guararapes. Ao chegar no local, os agentes do 12º Departamento de Polícia encontraram os sinais da violência: 14 cápsulas de pistola 38 e 40mm, de uso exclusivo da polícia, além de manchas de sangue, dentes e partes da massa encefálica da vítima.

O tititi dos moradores que ecoava através do vento narrava o acontecido. Antonio havia sido abordado, em frente à garagem do vizinho, por quatro homens que escondiam as verdadeiras identidades com o auxílio de meias em forma de capuz, estilo dos carrascos da época medieval. Os criminosos estavam a bordo de um Ecosport prata e, como os carrascos, encenaram o show da morte ali mesmo, em espaço público, ao atirarem contra o ambientalista. Em seguida, eles jogaram o corpo no porta-malas e saíram em disparada, seqüestrando o corpo da vítima e aumentando a angústia e a incerteza dos familiares.

Humilde, Antonio morava em uma casa simples, com muro baixo ainda no reboco, portão de ferro e uma pequena varanda que separava a área externa da, aparentemente, frágil porta e estreita janela marrom goiaba. A fachada da casa branca encardida denunciava que as paredes não sentiam o gosto de tinta há vários anos. Detalhes que reforçam a idéia de que o crime não poderia ter sido motivado por dinheiro, e sim, vingança.

Eliane Sampaio Silva Reis conta que o marido tinha muitos desafetos que não andavam nada satisfeitos com a atuação de Antonio em defesa do meio ambiente e, em especial, da Lagoa do Abaeté, Área de Proteção Ambiental (APA) que ele protegia como a própria vida. A lista de prováveis “inimigos” do ambientalista é recheada por comerciantes e policiais.

Por ironia do destino, ou uma brincadeira sarcástica dos criminosos, o corpo, que suspeitam ser do ambientalista, foi encontrado carbonizado no porta-malas de um carro em uma reserva ambiental, na localidade de Cordoaria, em Camaçari.

* Exercício produzido a partir das informações publicadas nos jornais A Tarde, Correio da Bahia e no BA TV.